Outro dia, a escultura do peixe na entrada da cidade amanheceu com a pichação em exclamação: “Marighella, vive”. No mesmo dia, em São Paulo, na rua em que o Deputado Federal Carlos Marighella foi brutalmente assassinado em 1969, a viúva Clara Charf, com um olhar de saudade do homem que amou, estava no local prestando homenagem aos 44 anos da morte do maior líder da resistência à ditadura militar.

As duas imagens reverberaram em minha memória a cena da noite de intenso calor quando ouvi a notícia na TV da morte do Marighella. A imagem de um homem morto dentro de um “fusca” colou-se ao sobrenome do meu pai que estava em viagem de trabalho. Minha mãe só ouviu a associação homofônica e deu um grito: “Seu pai morreu”. Em estado de choque fiquei observando a seqüência do mal entendido: ela desmaiando, vizinhos socorrendo e todos querendo saber o que estava acontecendo. Como a única televisão no bairro era na minha casa, não havia como desfazer o equívoco homofônico. Um tio, também funcionário da empresa, foi acionado para esclarecer que o Marighella assassinado não era meu pai.