Aula Inaugural "Freud e a Filosofia"

Aula Inaugural “Freud e a Filosofia”

Freud reconheceu sua leitura de Schopenhauer e negou sua leitura de Nietzsche, dizendo que havia se privado da leitura do filósofo de Basiléia para não ser influenciado por suas ideias. No entanto, sustento a seguinte hipótese: Freud leu Schopenhauer pela letra nietzschiana.

Se Nietzsche nomeou Schopenhauer seu único mestre em filosofia, suponho que a curiosidade o levou a àquele que inscreveu o trágico na filosofia e nas artes dita contemporâneas. A filosofia de Hegel está para o alvorecer, assim como a filosofia de Schopenhauer está para o crepúsculo do século XIX. Definitivamente nos séculos seguintes a filosofia seria hegeliana ou schopenhaueriana. Freud fez sua aposta. E, estou certo, ganhou.

Mais Informações em: https://www.even3.com.br/aifeafcmm2022/

Organizado por:

NEPS-R | Núcleo de Estudos de Psicanálise de Sorocaba e Região

Curso de História da Filosofia – 2022

Freud, leitor de Schopenhauer

“Voces dirão talvez, encolhendo o ombro: ‘Isto não é ciência natural, é filosofia schopenhaueriana’. Mas por que, senhoras e senhores, um pensador ousado não teria adivinhado o que depois é confirmado pela sóbria e laboriosa pesquisa de detalhes?” (in: Novas Conferências Introdutórias à Psicanálise, 1933)

Cronograma:

04 junho – Aula Inaugural “Freud entre Nietzsche e Schopenhauer”

02 julho – Freud e o idealismo alemão: “O mundo como vontade e                                            representação (1819)”

06 agosto – a vontade e o inconsciente: princípio de singularização

17 setembro – a pulsão sexual: Eros e Tanatos

22 outubro – sonho e recalcamento

19 novembro – a ética trágica na psicanálise

03 dezembro – o trágico e o absurdo: o sujeito do inconsciente

Horário: das 9h às 11h

30 vagas presenciais

30 vagas online (transmissão ao vivo pelo google meet)

Inscrição: WhatsApp – 19.998870409 (Luana)

R$ 70,00 por encontro (pagamento antecipado –  PIX)

local: Natural Music – Rua Almirante Barroso, 579A – Piracicaba/SP

Enunciado:

No conjunto das obras completas [1895-1938] de Sigmund Freud, o nome de Arthur Schopenhauer aparece em diferentes momentos e com funções distintas na argumentação do inventor da psicanálise. Ponto de apoio recorrente na  brilhante retórica  de Freud, o nome do filosófo parece-me um farol aos navegantes nos mares da teoria psicanalítica.

Paul-Laurent Assoun, no livro Freud, a filosofia e os filósofos (1976), passou em revista a cada uma das quinze referências ao nome de Schopenhauer, destacando que no artigo publicado em 1933 no Le Mercure de France, André Fouconnet foi o primeiro na França, a destacar Schopenhauer como precursor de Freud: “é no pessimismo filosófico de Schopenhauer que Freud encontrou seu objeto filosófico … neste filósofo prescrito, maldito, Freud construiu uma identificação com sua própria condição na comunidade científica de seu tempo”.

A primeira referência a Schopenhauer aparece em A Interpretação dos Sonhos (1900) para legitimar o conceito de recalque na construção dos sonhos. Freud retirou da posição do filósofo sobre o sonho e o recalque o ponto de ancoragem para designar o encontro convergencial.

Em 1925, no relato autobiográfico, Freud afirmou: “as amplas concordâncias da psicanálise com a filosofia de Schopenhauer – ele chegou a vislumbrar o mecanismo do recalque – não se deixam reduzir ao meu conhecimento de sua doutrina. Eu li Schopenhauer muito tarde em minha vida”.

Freud reconheceu sua leitura de Schopenhauer e negou sua leitura de Nietzsche, dizendo que havia se privado da leitura do filósofo da Basiléia para não ser influenciado por suas idéias. No entanto, sustento a hipótese: Freud leu Schopenhauer, depois de ter lido Nietzsche. Ele chegou a Schopenhauer pela letra nietzschiana.

Se Nietzsche nomeou Schopenhauer seu unico mestre em filosofia, suponho que a curiosidade o levou àquele que inscreveu o trágico na filosofia e nas artes dita contemporâneas. A filosofia de Hegel está para o alvorecer, assim como a filosofia de Schopenhauer está para o crepúsculo do século XIX. Definitivamente nos séculos seguintes a filosofia seria hegeliana ou schopenhaueriana.

No relato histórico do movimento psicanalítico (1914), Freud contou que a “teoria do recalque foi construída sem nenhum precursor; e por muito tempo manteve esta posição até o dia em que Otto Rank me mostrou uma passagem do livro O mundo como vontade e representação (1819) onde o Schopenhauer se esforçou por fornecer uma explicação para a loucura”

Rank foi nomeado como o mediador entre Freud e Schopenhauer. Como membro atuante da primeira geração de psicanalistas, foi também o primeiro a destacar a importancia do pensamento filosófico de Nietzsche para compreender pontos cruciais da teoria do inconsciente emergente nas formulações iniciais de Freud.

Em 1913, Rank escreveu com Hans Sachs, “A importância da psicanálise para as Ciências do Espírito”. No capítulo dedicado a “Filosofia, ética e direito”, afirmaram que os sistemas filosoficos oferecem o material cognitivo para pensarmos a posição do humano em sua relação com o mundo exterior e o Universo. Destacaram a importância de separar a filosofia [sistemas] da personalidade dos filósofos, arquitetos dos sistemas.

Schopenhauer foi apresentado como tipo de pensador analítico onde a pulsão epistemofílica é investida no prazer dos processos de pensamento em si mesmo. O ato de criação filosófica é identificado no ato de criação artística. A Filosofia em sua sistematização histórica é apreendida como obra de arte e, os filósofos, poetas.

Bibliografia:

ASSOUN, Paul-Laurent Freud, a filosofia e os filósofos. tradução: Hilton Japiassu. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.

ASSOUN, P.L. Freud & Nietzsche. Tradução Maria Lucia Pereira. São Paulo: Brasiliense, 1989

BRUM, José Thomaz O pessimismo e suas vontades: Schopenhauer e Nietzsche. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

FREUD, Sigmund Obras Completas em 20 volumes. Tradução Paulo Cesar Souza. São Paulo: Companhia das Letras.

FONSECA, Eduardo Psiquismo e vida: sobre a noção de Trieb nas obras de Freud, Schopenhauer e Nietzsche. Curitiba:UFPR, 2012.

FONSECA, Eduardo  Uma estreita passagem: O conceito de corpo nas obras de Schopenhauer e Freud. Curitiba:UFPR, 2016.

PASTORE, Jassanan O Trágico: Schopenhauer e Freud. São Paulo: Primavera Editorial, 2015.

LACAN, Jacques O Seminario 7 A ética da psicanálise. versão brasileira de Antonio Quinet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

MANN, Thomas Pensadores Modernos: Freud, Nietzsche, Wagner e Schopenhauer. Tradução Marcio Suzuki. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

NIETZSCHE, Friedrich Schopenhauer como educador. Tradução Claudemir Luis Araldi. São Paulo: Martins Fontes, 2020.

ROSSET, Clément La Filosofia Trágica. Traducción Ariel Dilon. Buenos Aires: El cuenco de plata, 2010.

ROUDINESCO, Elisabeth Sigmund Freud – na sua época e em nosso tempo. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

RANK, Otto SACHS, Hans Psychanalyse et Sciences humaines. traduit: Daniel Guérineau. Bibliothèque de Psychanalyse. Press Universitaires de France, 1980.

SAFRANSKI, Rüdiger Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia. Tradução Willian Lagos. São Paulo: Geração Editorial, 2011.

SAFRANSKI, R. Nietzsche – biografia de uma tragédia. Tradução Lya Luft. São Paulo: Geração Editorial, 2001.

Os amigos: Dali e Lacan

Em 1926, o jovem catalão Salvador Dali, expulso da Escola de Belas Artes de Madri,  decidiu visitar Paris e Bruxelas em busca de interlocutores à altura de sua genialidade. O cenário artístico da capital francesa fora dinamitado pela revolução surrealista e, Dali encontrou nos militantes da causa surrealista a companhia tão desejada.

Salvador Dalí

De volta à Espanha, publicou o Manifesto Amarelo e, com Luis Buñuel, participou do processo de criação dos filmes Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro. Retornou a Paris em 1929 e se apaixonou por Gala Éluard, esposa do poeta Paul Éluard. Formaram um triângulo amoroso com consequências decisivas para a criação artística de ambos.

No ensaio Novas Considerações Gerais Sobre o Mecanismo do Fenômeno Paranóico do Ponto de Vista Surrealista, publicado em 1933, Dalí descreveu os pressupostos do seu método de trabalho, nomeado paranoico-crítico: “o mecanismo paranoico, na perspectiva surrealista em que nos colocamos, é a prova do valor dialético desse princípio de verificação pelo qual passa praticamente no domínio tangível da ação o próprio elemento do delírio; é o penhor da vitória sensacional da atividade surrealista no campo do automatismo e do sonho”.

Jacques Lacan

Neste ensaio, encontra-se uma referência explícita à tese de doutoramento do jovem psiquiatra Jacques Lacan: Da Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade. A tese do amigo Lacan serviu como ponto de sustentação das posições assumidas por Dalí: a defesa da irracionalidade concreta que emerge da atividade imaginativa, característica fundante do fenômeno paranoico.

“É da tese do Lacan que devemos fazer, pela primeira vez, uma ideia homogênea e total do fenômeno paranoico, fora das misérias mecanicistas em que se atola a psiquiatria corrente. A obra de Lacan dá conta perfeitamente da hiper acuidade objetiva e comunicável do fenômeno paranoico, graças à qual o delírio adquire esse caráter tangível e impossível de contradizer que o situa entre os próprios antípodas do automatismo e do sonho.”

Lacan aproximou-se dos surrealistas e encontrou em Dali um amigo com quem compartilhou a crítica da psiquiatria vigente e na estética do artista construiu seu estilo na leitura inicial dos escritos de Sigmund Freud. Fez assim sua entrada no campo da psicanálise, revolucionando a prática clínica e a interpretação de conceitos fundamentais da psicanálise. Na década de 1950, assumiu o protagonismo do movimento nomeado ‘retorno a Freud’, rompendo os padrões de leitura de Freud dominante e inscrevendo na história da psicanálise o mesmo que Dali fez na história da arte.

O encontro de Lacan com Dali nas noitadas de vinho nos cafés parisienses no início da década de 30, fez do jovem psiquiatra marcado pela questão da paranoia no tratamento da psicose um marco inaugural do que a história veio a conhecer como a Escola de Lacan: lugar de transmissão e da formação de psicanalistas comprometidos com a ética do bem dizer o desejo.

in: Jornal Cidade – Rio Claro/SP – 27/maio/2022 – Projeto Conhecimento para Todos

Os amigos: Freud e Fliess

Os amigos: Freud e Fliess

O amor entre amigos era nomeado philia pelos gregos. O verbo philéo designa amar com amizade, tratar como amigo, amar no princípio da igualdade, reconhecendo no outro os valores que lhe são correspondentes; o amor que põem em relação esse princípio.

Aristóteles dedicou o livro 8 da Ética ao tema da amizade, destacando-a como uma virtude importante para a vida: “Porque sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que possuísse todos os outros bens. Amizade ajuda os jovens e aos velhos; aos que estão no vigor da idade, ela estimula a prática de nobres ações, pois na companhia de amigos os homens são mais potentes para criar, agir e pensar

Desde os anos de juventude, Sigmund Freud buscava um amigo com quem pudesse viver sob o signo da philia. Ao longo da vida plena em realizações, Freud esteve na companhia de grandes amigos, homens e mulheres. A vasta correspondência com seus amigos está sob domínio público como registro da história da amizade.

Na série publicada neste matutino, narrei a philia de Freud com Sandor Ferenczi e com Lou Salomé. Hoje apresento o amigo Wilhelm Fliess, médico otorrinolaringologista de Berlim. A Correspondência Completa (1887-1904), traduzida no Brasil em 1986, é um precioso arquivo para acompanhar a potência criativa da teoria psicanalítica.

As circunstâncias que tornaram públicas as cartas de Freud ao amigo Fliess é um capítulo importante na história dessa amizade e na história da psicanálise. No término da amizade, as cartas de Fliess à Freud foram destruídas, uma a uma, no fogo da lareira. Levou tempo para Freud elaborar os efeitos desta ruptura. As cartas de Freud a Fliess foram vendidas pela viúva a um comerciante de livros. A princesa Marie Bonaparte, amiga de Freud, soube da transação e comunicou ao autor das cartas.

princesa Marie Bonaparte
Princesa Marie Bonaparte

Temendo que chegassem ao conhecimento público, Freud confiou à Marie a tarefa de resgatar o lote de cartas. Com seus contatos por toda Europa, Marie conseguiu comprar o lote por 12 mil francos. Freud agradeceu: “nossa correspondência foi a mais intima que você possa imaginar. Seria altamente embaraçoso que viesse a cair nas mãos de estranhos. É uma extraordinária obra de amor que você tenha conseguido e livrado do perigo de vir a público. Não quero que nenhuma das cartas seja conhecida pela chamada posteridade”.

Marie contrariou o desejo de Freud e guardou o lote no Banco Rothschild em Viena em 1937. Com a expansão dos nazistas em Viena, a saga do lote de cartas atravessou fronteiras em transferência, de banco em banco, até chegarem intactas em Londres, para onde se refugiou Freud e sua família.

No vigor da idade, como indicou Aristóteles, a amizade estimula a prática de nobres ações, pois na companhia de amigos os homens são mais potentes para criar, agir e pensar. Freud, 31 anos e Fliess, 29 anos. Freud, recém-casado, inicia prática clínica como médico neurologista e ministra aulas como professor de neuropatologia na Universidade de Viena. Fliess foi a Viena em 1887 para estudar com Josef Breuer, amigo de Freud. Assim ocorreu o primeiro encontro. Breuer sugeriu a Fliess assistir as aulas de Freud. O laço de amizade produtor dos alicerces da psicanálise durou até 1904. Os efeitos do tempo em que os amigos viveram são eternos enquanto houver leitor interessado nas cartas que atestam, em parte, que Fliess foi o parteiro da psicanálise.

in: Jornal Cidade – Rio Claro/SP – 01/abril/2022 – Projeto Conhecimento para Todos

Psicanálise e Filosofia