No prefácio do livro As Palavras e as Coisas, publicado em 1966, Michel Foucault demonstrou que sua investigação arqueológica demarcou duas grandes descontinuidades na “epistémê” (saber) da cultura ocidental: a primeira inaugura a Idade Clássica (por volta do século 17) e, a outra, no início do século 19, delineando o limiar da modernidade. É em torno da segunda que emergiram todas as quimeras do humanismo naturalista e romântico: solo determinante para o surgimento das ciências humanas.

Constatou que “é um reconforto e um profundo apaziguamento pensar que o homem não passa de uma invenção recente, uma figura que não tem dois séculos, uma simples dobra de nosso saber e que desaparecerá desde que houver encontrado uma nova forma. Nesse limiar apareceu pela primeira vez esta estranha figura do saber que se chama homem e que abriu espaço próprio às ciências humanas”. Na última página do livro, encerrado de forma retumbante, Foucault proclamou tal como um Zaratustra: “O homem é uma invenção cuja recente data a arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente. E talvez, o fim próximo”.