Entre palavras e coisas

No prefácio do livro As Palavras e as Coisas, publicado em 1966, Michel Foucault demonstrou que sua investigação arqueológica demarcou duas grandes descontinuidades na “epistémê” (saber) da cultura ocidental: a primeira inaugura a Idade Clássica (por volta do século 17) e, a outra, no início do século 19, delineando o limiar da modernidade. É em torno da segunda que emergiram todas as quimeras do humanismo naturalista e romântico: solo determinante para o surgimento das ciências humanas.

 Constatou que “é um reconforto e um profundo apaziguamento pensar que o homem não passa de uma invenção recente, uma figura que não tem dois séculos, uma simples dobra de nosso saber e que desaparecerá desde que houver encontrado uma nova forma. Nesse limiar apareceu pela primeira vez esta estranha figura do saber que se chama homem e que abriu espaço próprio às ciências humanas”. Na última página do livro, encerrado de forma retumbante, Foucault proclamou tal como um Zaratustra: “O homem é uma invenção cuja recente data a arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente. E talvez, o fim próximo”.

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Romances Natalinos

Todo ano com aproximação do Natal e festejos do Réveillon somos tomados por um tsunami de afetos altruísta e os encontros de confraternização se multiplicam. Os encontros familiares começam a se anuviarem e de um modo ou de outro, todos são convocados a suspenderem as mágoas, rancores, raivas, ressentimentos e sentimentos afins, designados pela moral como agentes do mal. Na imagem sublime da natividade, o ódio é subitamente colocado em suspenso e suspense: o amor irá triunfar e, quiçá sobreviver às comidas, bebidas e trocas de presentes.

 A família é valorada como símbolo do Natal. Ocorre que há famílias, no plural. Cada unidade básica, cada célula familiar (como diriam os sociólogos funcionalistas), tem uma história singular. Cada um dos membros que compõem uma família tem sua própria narrativa e memórias: seus traços mnêmicos. Cada um conta como é ser filho, filha, pai, mãe, irmão, avó, avô, tio, sobrinho, neto, etc. A família é um romance com seus dramas tragicômicos — como tudo o que podemos narrar nesta vida. Um bom exercício natalino é uma roda de conversa onde cada um pode narrar suas memórias. O perigo é desembocar numa D.R. familiar: dependendo do teor alcoólico dos convivas, o estrago pode ser grande.

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Imaginação, Ciência e Poesia

“A ciência, a nova nobreza! O progresso. O mundo marcha! Por que não haveria de girar?” (Arthur Rimbaud)

A epistemologia (reflexão filosófica sobre a história do conhecimento científico) de Gaston Bachelard merece ser estudada nossos dias de hoje. A singularidade de seu trabalho de pensador pode ser reconhecida em dois de seus mais importantes leitores: o médico e filósofo Georges Canguilhem e, Michel Foucault. Em torno deles formou-se a clássica Escola de Epistemologia Francesa. O conceito “corte epistemológico” (um acontecimento que instaura descontinuidade na história das ciências), muitas vezes empregado por Foucault, é um marco decisivo na pesquisas arqueológicas e genealógicas. Tal conceito é “ad valorem” das leituras que realizou da obra de Bachelard.

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Lacan(agem) parisiense

Para o amigo Zé Lima.

No período ginasial tive uma professora de geografia que viajou a Paris. Na volta, mostrava mapas, fotos, revistas, postais e contava, com uma alegria contagiante, os passeios nos castelos, as histórias de reis e rainhas. Naquele tempo havia no currículo das escolas públicas aulas de língua francesa para as crianças. Guardo com carinho o livro Le français par l’image de Irma Aragonés Forjaz, publicado pela Companhia Editora Nacional. Este é um traço mnêmico determinante de toda minha formação acadêmica e experiência existencial: desde sempre, voltada para os autores franceses. Alinho-me à leitura que fizeram (e fazem) das obras de Nietzsche, Freud & Marx, meus alemães de coração. Portanto, meus livros prediletos são da lavra da língua francesa.

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Sartre em Araraquara

Em 1960, Jean-Paul Sartre esteve no Brasil como convidado de honra no 1º Congresso de Crítica e História Literária realizado em Recife. De lá passou por Salvador visitando terreiros de candomblé e comendo acarajé. Simone de Beauvoir, sua fiel escudeira, aparece nas fotos sempre com a expressão de quem se pergunta: o que é que eu estou fazendo aqui? Da Bahia para o Rio de Janeiro, Sartre atraía multidões, jornalistas, fotógrafos e acadêmicos da filosofia, literatura e ciências sociais. Era aclamado como portador do oráculo da dialética marxista aplicada aos movimentos de libertação. Um existencialista comprometido com as lutas sociais de emancipação.

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Psicanálise e Filosofia