All posts by Márcio Mariguela

Psicanalista com formação em filosofia e doutor em psicologia da educação pela Unicamp.

A vontade de saber: biografias (3)

No filme Leolo (1992) o diretor Jean-Claude Lauzon declarou seu amor aos livros: “tudo o que peço a um livro é que me dê energia e coragem, que me diga se há mais vida do que posso ter e que me lembre de que é urgente agir”. Esta poderia ter sido também a exigência do jovem holandês Vincent Van Gogh aos livros. Leitor voraz, escritor sublime, pintor incandescente, Vincent (como pedia para ser chamado) teve sua vida esquadrinhada pelos biógrafos depois que sua arte foi reconhecida como revolucionária.

Após sua morte em julho de 1890, seu amado irmão Théo faleceu subitamente no ano seguinte. Na seqüência, a viúva do irmão publicou numa revista em Paris, fragmentos dascartas de Vincent a Théo. Em 1914, elas são publicadas na íntegra na Holanda. A primeira biografia de Vincent foi escrita por Julius Meier-Graefe em 1922. Irving Stone, biógrafo americano, publicou em 1934, Sede de Viver, um relato ficcional (romance biográfico) que se tornou “best-seller”, imprimindo à imagem do tiro fatal no campo de trigo: a última tela pintada. O livro de Stone foi adaptado para as telas de cinema em 1956 e coube ao magistral Kirk Douglas o papel de interpretar o pintor holandês. O filme (disponível no Netflix) dirigido por Vincente Minnelli venceu o Oscar e se tornou referencia para os cinéfilos.

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A vontade de saber: biografias (2)

O jovem polonês Arnold Zweig se tornou escritor lendo os livros de Nietzsche. Encontrou na filosofia trágica do Assim Falou Zaratustra os fundamentos literários da teoria do inconsciente formulada pelo neurologista Sigmund Freud, inventor da psicanálise. Iniciou uma correspondência com o médico vienense e tornaram-se amigos. Certa vez, Zweig se propôs a escrever a biografia de Freud e recebeu como resposta: “Quem quer que se torne biógrafo entrega-se à mentiras, ocultamentos, hipocrisia, embelezamentos, dissimulação de sua própria falta de compreensão, pois não se alcança a verdade biográfica e, mesmo que alguém a alcançasse, não poderia usá-la.”

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A vontade de saber: biografias (1)

Aproveitando a onda, vamos surfar na polêmica em pauta nos meios de comunicação: os direitos autorais para comercialização de livros designados biografias. De um lado, um projeto de lei proposto pela Anel (Associação Nacional dos Editores de Livros) propõe alterar o artigo 20 do Código Civil brasileiro, também chamado de Lei das Biografias. De outro, a associação Procure Saber (formada por um grupo de artistas, autores e pessoas ligadas de algum modo a arte) que propõe uma reflexão sobre a questão pelo viés da autoria.

O autor da própria vida tem, atualmente, direito inalienável sobre seu nome próprio com o qual legitima e justifica sua existência temporal. Portanto, pode decidir se quer ou não tornar pública sua história privada e, se for uma figura pública, pode acionar a justiça para reparar danos à sua dignidade física e moral. A legislação brasileira protege todo e qualquer cidadão dando-lhe plenos direitos sobre sua história de vida. Tal como prescrito no código civil, “a vida privada é inviolável”. Cada um é o autor de sua própria história. Se quiser (ou não) escrevê-la e publicá-la é uma decisão de pleno direito. Seus herdeiros recebem, após sua morte, tal direito à autoria.

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Paris de Madame Bovary

Madame Bovary é reconhecidamente o romance mais importante da literatura francesa: fundador do realismo moderno. Um dos meus preferidos que gosto de reler com deleite. Tive uma linda gata siamesa (cruelmente assassinada por envenenamento) com o nome da personagem de Gustave Flaubert.

Em 1856, o romance é publicado em capítulos( folhetim, tal como novela das 21h) na Revista de Paris. Avidamente, os leitores acompanhavam as desventuras da jovem Emma Bovary em busca de uma vida glamorosa representada pela ascensão da classe burguesa parisiense: festas, bailes, vestidos, valsas e teatro operístico. Órfã de mãe, Emma vivia com seu dedicado pai, no sítio entre gansos e suspiros melancólicos. Inebriada com os livros de romances, imaginava ser Madame. Eis que o destino lançou os dados e a jovem fez sua aposta: seu pai quebrou o pé e certo doutor da região é chamado para os cuidados. Emma decidiu de pronto conquistar o médico, casar e viver na cidade: lugar onde seus sonhos poderiam se realizar.

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Histórias da Loucura em Paris

Paris, maio de 1968: os universitários vão às ruas exigir mudança no sistema educacional. Queriam conteúdos modernos em sintonia com as vanguardas da esquerda, liderada pelo célebre PCF (Partido Comunista Francês). A Universidade Sorbonne é ocupada e se propaga na França uma greve de trabalhadores. Estudantes, professores, trabalhadores, apoio midiático e partidário: o estopim revolucionário estava detonado.Marcados pela história de decapitar a monarquia instituída, os franceses se identificam com causas revolucionárias.

O que desejavam os jovens parisienses? O impossível: proibido proibir! Muita tinta e película já correram em retratar este acontecimento recente. O retrato de quem estava lá pode ser contemplado no belo filme, Os Sonhadores (2003), do diretor italiano Bernardo Bertolucci.

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