All posts by Márcio Mariguela

Psicanalista com formação em filosofia e doutor em psicologia da educação pela Unicamp.

Romances Natalinos

Todo ano com aproximação do Natal e festejos do Réveillon somos tomados por um tsunami de afetos altruísta e os encontros de confraternização se multiplicam. Os encontros familiares começam a se anuviarem e de um modo ou de outro, todos são convocados a suspenderem as mágoas, rancores, raivas, ressentimentos e sentimentos afins, designados pela moral como agentes do mal. Na imagem sublime da natividade, o ódio é subitamente colocado em suspenso e suspense: o amor irá triunfar e, quiçá sobreviver às comidas, bebidas e trocas de presentes.

 A família é valorada como símbolo do Natal. Ocorre que há famílias, no plural. Cada unidade básica, cada célula familiar (como diriam os sociólogos funcionalistas), tem uma história singular. Cada um dos membros que compõem uma família tem sua própria narrativa e memórias: seus traços mnêmicos. Cada um conta como é ser filho, filha, pai, mãe, irmão, avó, avô, tio, sobrinho, neto, etc. A família é um romance com seus dramas tragicômicos — como tudo o que podemos narrar nesta vida. Um bom exercício natalino é uma roda de conversa onde cada um pode narrar suas memórias. O perigo é desembocar numa D.R. familiar: dependendo do teor alcoólico dos convivas, o estrago pode ser grande.

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Imaginação, Ciência e Poesia

“A ciência, a nova nobreza! O progresso. O mundo marcha! Por que não haveria de girar?” (Arthur Rimbaud)

A epistemologia (reflexão filosófica sobre a história do conhecimento científico) de Gaston Bachelard merece ser estudada nossos dias de hoje. A singularidade de seu trabalho de pensador pode ser reconhecida em dois de seus mais importantes leitores: o médico e filósofo Georges Canguilhem e, Michel Foucault. Em torno deles formou-se a clássica Escola de Epistemologia Francesa. O conceito “corte epistemológico” (um acontecimento que instaura descontinuidade na história das ciências), muitas vezes empregado por Foucault, é um marco decisivo na pesquisas arqueológicas e genealógicas. Tal conceito é “ad valorem” das leituras que realizou da obra de Bachelard.

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Lacan(agem) parisiense

Para o amigo Zé Lima.

No período ginasial tive uma professora de geografia que viajou a Paris. Na volta, mostrava mapas, fotos, revistas, postais e contava, com uma alegria contagiante, os passeios nos castelos, as histórias de reis e rainhas. Naquele tempo havia no currículo das escolas públicas aulas de língua francesa para as crianças. Guardo com carinho o livro Le français par l’image de Irma Aragonés Forjaz, publicado pela Companhia Editora Nacional. Este é um traço mnêmico determinante de toda minha formação acadêmica e experiência existencial: desde sempre, voltada para os autores franceses. Alinho-me à leitura que fizeram (e fazem) das obras de Nietzsche, Freud & Marx, meus alemães de coração. Portanto, meus livros prediletos são da lavra da língua francesa.

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Sartre em Araraquara

Em 1960, Jean-Paul Sartre esteve no Brasil como convidado de honra no 1º Congresso de Crítica e História Literária realizado em Recife. De lá passou por Salvador visitando terreiros de candomblé e comendo acarajé. Simone de Beauvoir, sua fiel escudeira, aparece nas fotos sempre com a expressão de quem se pergunta: o que é que eu estou fazendo aqui? Da Bahia para o Rio de Janeiro, Sartre atraía multidões, jornalistas, fotógrafos e acadêmicos da filosofia, literatura e ciências sociais. Era aclamado como portador do oráculo da dialética marxista aplicada aos movimentos de libertação. Um existencialista comprometido com as lutas sociais de emancipação.

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A vontade de saber: biografias (4)

Outro dia, a escultura do peixe na entrada da cidade amanheceu com a pichação em exclamação: “Marighella, vive”. No mesmo dia, em São Paulo, na rua em que o Deputado Federal Carlos Marighella foi brutalmente assassinado em 1969, a viúva Clara Charf, com um olhar de saudade do homem que amou, estava no local prestando homenagem aos 44 anos da morte do maior líder da resistência à ditadura militar.

 As duas imagens reverberaram em minha memória a cena da noite de intenso calor quando ouvi a notícia na TV da morte do Marighella. A imagem de um homem morto dentro de um “fusca” colou-se ao sobrenome do meu pai que estava em viagem de trabalho. Minha mãe só ouviu a associação homofônica e deu um grito: “Seu pai morreu”. Em estado de choque fiquei observando a seqüência do mal entendido: ela desmaiando, vizinhos socorrendo e todos querendo saber o que estava acontecendo. Como a única televisão no bairro era na minha casa, não havia como desfazer o equívoco homofônico. Um tio, também funcionário da empresa, foi acionado para esclarecer que o Marighella assassinado não era meu pai.

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