Todo ano com aproximação do Natal e festejos do Réveillon somos tomados por um tsunami de afetos altruísta e os encontros de confraternização se multiplicam. Os encontros familiares começam a se anuviarem e de um modo ou de outro, todos são convocados a suspenderem as mágoas, rancores, raivas, ressentimentos e sentimentos afins, designados pela moral como agentes do mal. Na imagem sublime da natividade, o ódio é subitamente colocado em suspenso e suspense: o amor irá triunfar e, quiçá sobreviver às comidas, bebidas e trocas de presentes.
A família é valorada como símbolo do Natal. Ocorre que há famílias, no plural. Cada unidade básica, cada célula familiar (como diriam os sociólogos funcionalistas), tem uma história singular. Cada um dos membros que compõem uma família tem sua própria narrativa e memórias: seus traços mnêmicos. Cada um conta como é ser filho, filha, pai, mãe, irmão, avó, avô, tio, sobrinho, neto, etc. A família é um romance com seus dramas tragicômicos — como tudo o que podemos narrar nesta vida. Um bom exercício natalino é uma roda de conversa onde cada um pode narrar suas memórias. O perigo é desembocar numa D.R. familiar: dependendo do teor alcoólico dos convivas, o estrago pode ser grande.
A epistemologia (reflexão filosófica sobre a história do conhecimento científico) de Gaston Bachelard merece ser estudada nossos dias de hoje. A singularidade de seu trabalho de pensador pode ser reconhecida em dois de seus mais importantes leitores: o médico e filósofo Georges Canguilhem e, Michel Foucault. Em torno deles formou-se a clássica Escola de Epistemologia Francesa. O conceito “corte epistemológico” (um acontecimento que instaura descontinuidade na história das ciências), muitas vezes empregado por Foucault, é um marco decisivo na pesquisas arqueológicas e genealógicas. Tal conceito é “ad valorem” das leituras que realizou da obra de Bachelard.