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O Tempo e o Templo (6)

Minha predileção em visitar templos em lugares por onde passo remonta ao tempo de criança: traços minêmicos de um passado que retorna com intensidade sensorial em cada igreja ou capela que conheço. Os templos contêm o tempo: memorial de cidades e da história da arquitetura, escultura e pintura. São verdadeiros museus, no sentido etimológico da palavra, templos das Musas.

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Sou o primeiro neto de avôs paterno descendentes de família italiana que chegaram ao Brasil fugindo da 1ª Guerra Mundial e foram trabalhar nas lavouras de café no noroeste paulista. Com a crise do café em 1929, muitos colonos foram obrigados a buscar trabalho em outras cidades da região. Instruído nas letras e nos números, ferreiro e carpinteiro, meu avô criou uma oficina onde fabricava charretes, facas, facões, enxadas e demais utensílios para a lavoura em São Sebastião dos Coqueiros, primeiro nome do vilarejo posteriormente nomeado município de Taquaritinga, terra das taquaras.

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O Tempo e o Templo (5)

No fragmento atribuído a Heráclito encontra-se a mais bela definição de tempo: “O tempo é uma criança que brinca, movendo as pedras do jogo para lá e para cá; é governo de criança”. Instalada no instante presente, a criança não tem consciência do antes e do depois, do passado e do futuro. Seu tempo é o prazer obtido pelo ato de brincar. Considerando o princípio que rege a filosofia heraclitiana pode-se deduzir o valor simbólico da metáfora contida no fragmento. O tempo é um fluxo constante e ininterrupto, um vir-a-ser contínuo, o devir do ser: é puro acontecimento inscrevendo o movimento no qual todo o ser procura sustentar sua existência.O Tempo e o Templo 5

Estar no mundo é estar no tempo. O tempo é uma procissão de instantes entre o horizonte memorável do passado e as expectativas do futuro. Do passado só podemos relembrar para justificar o presente, dando-lhe sentido e significação. Do futuro, mantemos a ilusão de um controle, planejamento e previsibilidade. Quimera humana a sustentar nosso desamparo frente às contingências e circunstâncias que não dependem de nossa vontade. O futuro é um oceno de possibilidades governado pela deusa Fortuna à qual estamos submetidos. Podemos rememorar o passado e não podemos prever o futuro.

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O Tempo e o Templo (4)

o-tempo-e-o-templo-4Nos períodos de governo do rei Salomão e do rei Davi surgiram os primeiros escritos que compõem a Bíblia Sagrada de Jerusalém. O Pentateuco (narrativa da gênese da cultura judaica) é um composto das duas principais versões de escribas contratados pelos reis para reunir a narrativa mítica sobre a origem do cosmo e de tudo o que nele existe. Até então, as narrativas da criação eram transmitidas oralmente no templo. O tempo da criação e a história do povo israelita passaram à escrita por volta do século 10 a.C. e assim iniciou-se a narrativa conhecida e consagrada pela tradição judaico-cristã.

Quando estudava Teologia, o professor de exegese bíblica nos ensinava a identificar no Antigo Testamento e em especial no livro do Gênesis, a tradição “javista” (os que nomeavam Deus como Iahweh) e a tradição “eloísta” (designam Deus como Elohim). Para tanto, o exercício consistia em pintar cada versão com uma cor e depois realizar a leitura. Realizava-se assim um trabalho de desconstrução do texto a fim de visualizar as diferentes narrativas de diferentes tribos do Norte e do Sul da Palestina. Esse gesto deixou marcas em minha formação, pois permitiu compreender que em todo texto (sagrado ou não) há um contexto histórico.

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O Tempo e o Templo (3)

Com frequência sou interrogado se acredito em Deus. Sim, acredito em Deus, em Zeus, Poseidon, Apolo, Dionísio, Afrodite, Diana, Adonis, Oxalá, Oxossi, Xango e Iemanjá. Minha crença é politeísta e atribuo o valor de sagrado aos livros fundadores da consciência mítica como a primeira forma de representação que os humanos foram e são capazes de inventar para dar continência à angústia do desamparo diante da morte.

A consciência de saber-se mortal é o peso do real insuportável sem um anteparo simbólico. Angústia de saber-se finito encontra na crença em divindades um suporte, uma borda. O tempo finito da existência precisa ser eternizado de um algum modo e os deuses servem justamente para nos ajudar a suportar o inefável, o provisório, o imprevisto, o inexplicável e o indizível. Diante da eternidade dos deuses, amparamos nossa finitude.

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Odiar a Si Mesmo é Autoflagelo

A palavra paixão carrega consigo dupla rede de significação: por um lado, estar apaixonado é sentir um amor ardente, um estado de arrebatamento, contentamento, entusiasmo, bem querer; por outro, é provocar aflição, flagelo, tristeza intensa em alguém ou a si mesmo, mal querer. Amar e odiar são paixões primárias mobilizadoras de afetos e definem a relação pulsional entre o Eu e o objeto.

O problema consiste quando o próprio Eu é o objeto de investimento do ódio. Pode parecer trivial quando no momento de raiva, a sentença “Eu me odeio” é enunciada. Há, no entanto, uma dimensão inconsciente deste ódio a si que se revela na forma de um gozo masoquista: o prazer em sofrer, em imputar-se sofrimento sem causalidade somática, orgânica. Obter prazer na dor é um autoflagelo.

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