Arte e Loucura: interfaces

A arte como forma de expressão da loucura e lugar de sua continência ocupou a cena central no movimento surrealista da década de 1920. Imersos no cenário desolador pós Primeira Guerra Mundial e a Revolução Soviética de 1917, os surrealistas marcaram profundamente o destino da literatura, das artes plásticas, da filosofia e da psicanálise nas décadas seguintes. Toda uma geração de escritores, pintores, dramaturgos, além de médicos psiquiatras tomaram parte nesse movimento de vanguarda artística. Surgindo daí o movimento antipsiquiátrico e da luta antimanicomial.

André Breton e Tristan Tzara travaram um duelo de grandes proporções na história da cultura contemporânea. Para além das posições antagônicas no que dizia respeito ao compromisso do movimento com as causas da revolução marxista, os baluartes do surrealismo estavam atentos às novas possibilidades de interpretação do mundo, da matéria e do humano. É nesse sentido que os nomes de Einstein, Heisenberg e Freud foram invocados pelos surrealistas para fundamentar seu projeto revolucionário: proclamar a ruptura da arte com a lógica e por conseqüência interrogar as práticas de internamento dos doentes mentais. O livro Nadja, publicado por Breton em 1926, é a expressão sublime desse projeto.

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O estado atual da loucura

A obra de Sigmund Freud foi interpretada por Michel Foucault como tendo inaugurado uma nova forma de interpretação que interroga sem cessar a constituição da psiquiatria e demais ciências humanas. Essa posição aparece no artigo de 1964: “A Loucura, a Ausência da Obra”. Iniciou com a seguinte previsão: “Talvez, um dia, não saibamos mais muito bem o que pode ter sido a loucura. Sua figura terá se fechado sobre ela própria, não permitindo mais decifrar os rastros que ela terá deixado”.

Logo adiante, após identificar um ponto de mutação que marca uma descontinuidade na concepção clássica da loucura, Foucault apresentou algumas questões decisivas para nossa atualidade: “qual será o suporte técnico dessa mutação? A possibilidade para a medicina de dominar a doença mental como doença orgânica? O controle farmacológico preciso de todos os sintomas psíquicos? Ou uma definição bastante rigorosa dos desvios de comportamento, para que a sociedade tenha tempo disponível de prever, para cada um deles, o modo de neutralização que lhe convém? Ou ainda outras modificações das quais nenhuma, talvez, suprimirá realmente a doença mental, mas que terão como sentido, apagar de nossa cultura a face da loucura? ”

Reconheceu Freud como o primeiro a romper com os modos de apagamento que o discurso psiquiátrico impôs à loucura. Com Freud, a loucura deixou de ser falta de linguagem, blasfêmia proferida ou significação intolerável. Por isso, proclamou ser preciso um dia fazer justiça a Freud.

Freud instaurou uma discursividade (a psicanálise) e toda uma rede de proliferação de sentido pôde ser produzida. Como autor, criou a possibilidade e a regra de formação de outros discursos que, ao se remeterem à psicanálise, não poderão mais sustentar sua validade por um recuo ao sentido originário. Por isso, não tornou possível apenas certo número de analogias, tornou possível certo número de diferenças ao abrir o espaço para outra coisa diferente dele e que, no entanto, pertence ao que ele fundou.

O pressuposto adotado pela psicanálise é que os fenômenos considerados normais, tais como: atos falhos, lapsos de linguagem falada ou escrita os sonhos, podem ser compreendidos como parte de um conjunto que envolve os fenômenos patológicos: as crises convulsivas, delírios, visões, ideias ou atos obsessivos, conversões histéricas. Ou seja, os processos normais e os descritos como patológicos seguem as mesmas regras de causalidade psíquica. Assim, a primeira linha que demarca o território da psicanálise significou um apagamento das fronteiras entre o normal e o patológico.

A psicanálise rechaçou, até agora, a referência da tópica psíquica a uma localização anatômica (o cérebro como centro das atividades psíquicas). De igual modo, rechaçou qualquer referência a uma estratificação histológica (como as determinações genéticas). Freud solicitou de seus leitores que evitassem a tentação de buscar uma base anatômica para o aparelho psíquico. Advertência fundamental para todos que pretendem circular no território da psicanálise e evitar o canto da sereia de nossos tempos: as neurociências.

Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro no projeto “Conhecimento para Todos” do Instituto Justa Trilha Brasil

http://www.justatrilha.org.br/

A criança do psicanalista

Revista Essaim, nº 34, 2015

“A criança do psicanalista”

 Tradução: Marta Togni Ferreira

A concepção do que é uma criança e seu estatuto na sociedade e na família evoluíram no decorrer do tempo. Desde seu início, a psicanálise desempenhou um papel nessa evolução. Precisar as consequências daí decorrentes nos interessa, ainda que seja apenas para saber em quê os ideais de uma sociedade marcada pela psicanálise agem em retorno sobre sua prática, notadamente sobre a prática da psicanálise com crianças. Particularmente com estas, a psicanálise corre o risco de se impregnar de teorias desenvolvimentistas, médicas e educativas, de normatizações de toda espécie; e nisso, perder de vista que não há psicanálise da criança, mas uma psicanálise de alguém com um sujeito.

A qualificação como criança representa uma identidade que tampona o vazio do sujeito, definido em sua relação ao Outro como representado por um significante para outro significante. A sutura do sujeito pela identidade “criança” (ou outra) é fonte de desvios nas abordagens clínicas, seja nas instituições, seja na prática liberal. Há sempre o risco de confundir o registro lógico da alienação e separação do sujeito ao Outro com as representações na realidade. Por isso, se faz necessário manter o debate.

A psicanálise com crianças comporta um certo número de particularidades, das quais uma merece ser destacada: ela apela, de maneira lógica, a um terceiro na cura de uma criança, em geral, os pais. Essa lógica de intervenção do terceiro, que a psicanálise de adultos exclui rigorosamente, foi pouco teorizada pelos próprios psicanalistas.

Esse apelo ao terceiro parental não implica uma visada educativa ou normatizadora, como propôs Anna Freud. Ela é a possibilidade oferecida à criança e ao terceiro, nesse work in progress, de apreender alguma coisa do lugar do desejo e do gozo. E assim, desde o início de sua existência, deixa supor aí os efeitos de só-depois.

Essa última observação, por si só, poderia explicar o fracasso radical da psicanálise, selvagem ou “oficial” como foi o caso de Freud e Melanie Klein, de pais “analistas” de seus próprios filhos. Nesse caso, os analistas confundiram o terceiro parental (em toda sua cegueira) e o sujeito suposto saber: os efeitos foram devastadores para as crianças cobaias.

O tema da criança do psicanalista não se limita nem de longe a essa última questão, ele engloba também a interrogação sobre o que é um sujeito “criança” para o psicanalista, e a maneira pela qual, em sua prática e através de sua teoria, ele consente em escutá-lo.

Campinas, setembro de 2016.

 

(Tradução do Argumento que introduz os artigos da Revista Essaim, 34, L’enfant du psychanalyste, para utilização interna ao curso de psicanálise com crianças)

Essaim – Revue de Psychanalyse (nº 34 – 2015/1). Paris: Éditeur ERES.

Quando o inverno chegar

Quando o Inverno Chegar

O inverno é a estação temporal que desperta o desejo de se aninhar. Ajuntamento é o outro nome do inverno. As pessoas se encolhem, se escondem, se aquecem e se recolhem. O verão é expansivo, despudorado, sem roupa. O inverno é elegante: casaco, gorro, bota, chapéu.

Nas regiões tropicais as estações do ano parecem biruta. No mesmo dia pode ocorrer as quatro estações. Os países do Norte também estão confusos na marcação do tempo: primavera, verão, outono, inverno. Por lá, o cenário pintado pelas forças da natureza era bem mais definido do que atualmente. Dizem ser resultado do efeito estufa.

O inverno é um significante que nomeia para além da baixa temperatura. Inverno é um estado de espírito. Um modo de ser. Os poetas falam de um espírito invernal. Pintores olhavam para o cenário invernal e inventaram inusitadas tonalidades com a cor branca.

Um exemplo: Vincent van Gogh pintou dezenas de telas invernais. A primeira contém, em germe, a genialidade do iniciante holandês. Foi seu primeiro inverno em Paris (dezembro/1886) e também o encontro com o impressionismo que inaugurou a pintura moderna. A cena escolhida é o alto da colina de Montmartre. O mirante é uma das mais belas vistas da capital francesa.

Quatro luminárias enfileiradas formam a perspectiva. Ao fundo, cinco personagens agasalhados contemplam a névoa gélida. Dois amigos, grudados, olham o nada que a névoa encobre. Ao lado, um senhor se esforça para ler o jornal. No ponto mais alto, num tablado, uma dama de vestido azulado se aconchega num cavalheiro de cartola. Toda cena é banhada num tom cinzento invernoso. A mestria do pintor vacilante está no modo como retratou o vento. O expectador é capaz de sentir o frio retratado na tela.

Passear no inverno é atividade exigente. As condições externas são desafiadoras e o transeunte precisa encapotar-se para enfrentar o frio cortante. Mesmo assim, viajar no inverno tem lá sua beleza e não há porque recuar frente ao clima contestador.

Certa vez decidi passar o natal com neve. Escolhi Covilhã, cidade medieval na Serra da Estrela, norte de Portugal. Da estação Santa Apolônia em Lisboa, o comboio subiu margeando o rio Tejo contornando plantações displicentes de oliva. No inverno da Península Ibérica, o único verde predominante são os novos galhos das oliveiras podadas. Alguns pinheiros e castanheiras resistentes colorem o azul cinzento.

Os estudantes da Universidade da Beira Interior imprimem vivacidade nesta cidade em declive. No período do Natal, com o recesso escolar, a cidade parece um fantasma numa encosta da serra. Esperamos a chuva de neve na praça central: não foi desta vez. Para brincar na neve foi preciso subir até o cimo da Serra com dois mil metros de altitude. Percorrermos 20 km de encostas e, aos poucos, o branco da neve cobria a paisagem até dominá-la totalmente, formando um monte de gelo em flocos.

Criar boneco de neve é o primeiro ato impulsivo para o batismo no branco indecifrável. Uma hora de brincadeira e o incômodo frio começa a expulsar em busca de ambiente quente com vinho e chocolate. O queijo de ovelha, o presunto serrano e as saborosas azeitonas in natura são aperitivos inesquecíveis.

Com a cidade fechada no Natal e sem ter o que fazer, decidimos visitar duas vilas próximas: Sortelha e Belmonte. Sortelha é cercada por alta muralha de pedras construída na Idade Média. Caminhando pelas ruelas encontrei Filomena, senhora de 86 anos em estado de luto permanente. Nascida na vila de pedra, esperava a morte chegar. Resignada a viver no casebre na crosta da muralha, tecia fios de capim formando cestinhas oferecidas aos turistas. Rezava seu rosário de lamentações e súplicas à Virgem das Neves, padroeira das pedras imortais e do frio imemorial.

Fonte:
Revista Arraso / Edição Aniversário 8 anos
Ano 8; nº 65; 1º semestre/2016
Ao Gato Preto Editora – Piracicaba/SP
Ilustração: Maria Luziano

Psicanálise e Filosofia