All posts by Márcio Mariguela

Psicanalista com formação em filosofia e doutor em psicologia da educação pela Unicamp.

Freud, a literatura e as viagens a Roma, parte 2

Narrava, no artigo anterior, as peregrinações de Sigmund Freud a Roma e as visitas ao túmulo do papa Júlio 2º na igreja de San Pietro in Vincoli para contemplar a figura do patriarca Moisés, esculpido no mármore por Michelangelo. Destas visitas, nasceu o artigo Moisés de Michelangelo, publicado anonimamente em 1914. Neste texto, encontramos um testemunho importante: “As obras de arte exercem sobre mim um poderoso efeito, especialmente a literatura e a escultura e, com menos freqüência, a pintura. Isto já me levou a passar um longo tempo contemplando- as, tentando apreendê-las á minha própria maneira, isto é, explicar a mim mesmo a que se deve o seu efeito. Uma inclinação psíquica em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de comover- me com uma coisa sem saber por que sou assim afetado e o que é que me afeta”.

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Freud, a Literatura e as Viagens a Roma

No texto do último domingo, destaquei a viagem do médico vienense Sigmund Freud a Roma, de lá para Trieste onde embarcou no vapor da Companhia Lloyd meio ao acaso para a Grécia. Nas colunas da Acrópole decidiu publicar seus Ensaios de Sexualidade. Vamos nos deter mais nas viagens a Roma. No livro As Cidades de Freud, Giancarlo Ricci traçou o itinerário do viajante por meio de minuciosa pesquisa que lhe permitiu cartografar os itinerários a partir do epistolário, dos artigos, dos livros publicados por Freud, incluindo registro de hospedagem: “Roma é aquele ponto distante, abstrato e inatingível em torno do qual giram míriades de outras cidades. Ele precisará de seis anos de navegação em terra italiana antes de pôr os pés em Roma. Aos olhos de Freud, Roma, umbigo do mundo, se junta não com o reino do desconhecido, mas com o indistinto, com aquilo que ainda não se deixa reconhecer com exatidão”.

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Ensaios de Sexualidades em Viena

Há livros que são acontecimentos no tempo e no espaço. Outros são simples mercadorias, igualando-se às demais disponíveis para o consumo. Os livros que tem identidade são aqueles que instauram ruptura e descontinuidade em seu contexto histórico. Há os que orbitam em paradigmas dominantes em um dado momento e, portanto, não figuram como um acontecimento, não causando ruptura na cultura e nos modos de representação subjetiva. Os livros de psicopatologia sexual, por exemplo, circundavam o grande sol da biologia no final do século 19. Eles fizeram a cartografia dos desvios do comportamento sexual genitalmente centrado para fins reprodutivos. Sendo a norma um construto científico, tudo o que desvia da norma é patológico. O pecado de outrora virou perversão, anormalidade. É neste cenário que o médico neurologista Sigmund Freud escreveu os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, publicado em 1905, depois de muita hesitação, em Viena.

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O conto da pedra que cresce em Iguape

Continuando o trajeto desta série, apresentando a carteira de identidade de livros de filosofia e literatura, hoje colhemos um conto do escritor franco-argelino Albert Camus. Incluído no livro O Exílio e o Reino, o conto A Pedra que Cresce foi publicado em 1957. Na versão original, o conto intitulava-se Uma Macumba no Brasil. No escrito, o narrador conta a viagem e estadia de um engenheiro francês à pequena cidade do Vale do Ribeira, no interior sul de São Paulo, para preparar a construção de uma represa.

Iguape — em tupi, significa enseada do rio — foi colonizada no final do século 16 e designada Freguesia de Nossa Senhora das Neves da Vila de Iguape. Em 1848, elevada a condição de cidade do Bom Jesus de Iguape, a padroeira inicial cedeu lugar a um culto e devoção popular à imagem do Bom Jesus encontrada por pescadores e alojada em uma gruta onde se acredita na existência de uma pedra que cresce. Todo ano, peregrinos de várias regiões visitam Iguape para pagar promessas, pedir graças ao Bom Jesus e levar uma lasca da pedra para casa.

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A alegre ciência: elogio à vida em sua singularidade

Desde que tomei gosto pela leitura, encontrei nos livros companhia para percorrer os caminhos que tenho trilhado no decurso de minha existência. Os livros ganhavam uma personalidade, identidade antropomórfica. Gosto de pensar que o livro tem registro de identidade, semelhante a um R.G. Ele é um objeto no mundo que foi criado: tem um pai ou uma mãe, na verdade, seu autor (a) assume na escrita a função paterna e materna. Tem também um nome, seu título (às vezes, subtítulos — uma espécie de adjetivo agregado ao título).

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