Na carta de 06/10/1909 Freud consolou o amigo húngaro: “Não se lamente por não ter perguntado à pitonisa Madame Seidler pelo futuro. Ele se renova constantemente, nem o bom Deus o conhece antecipadamente. Ela soube ler seus pensamentos e este fenômeno é notável. Por ora silencie a respeito; vamos fazer outros experimentos”.
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Freud & Ferenczi na Sicília – 4

Antes de chegar à Sicília, estamos reconstruindo em capítulos, o histórico da relação entre Freud e seu jovem admirador de Budapeste. No artigo anterior, deixamos os dois amigos em Hamburgo, na casa de Madame Seidler, espécie de pitonisa moderna. Tal como a sacerdotisa do Templo de Apolo, ela era um misto de médium, vidente e cartomante com certa fama pela Europa no início do século 20.
Freud & Ferenczi na Sicília – 3
Após o primeiro encontro em janeiro/1908, a inclusão de Sándor Ferenczi no círculo familiar de Sigmund Freud foi imediata. Juntos passaram as férias de verão na região de montanhas, celebraram o natal na casa de Freud em Viena e atravessaram o Atlântico com destino à América no outono/1909. No ano seguinte, embarcaram rumo ao sul da Itália, onde viveram a experiência decisiva da longa e assimétrica amizade.

Fricassê em Avignon: uma recordação gastronômica
Cozinhar é o mais privado e arriscado ato. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é serviço, é um modo de amar os outros. (Mia Couto)

Há em cada um de nós uma memória gastronômica composta de cheiros, cores, sabores e afetos. Remotas recordações de comidas aparecem com grande frequência no tempo presente e ao longo de nossa existência. Dona Cida, minha amada avó paterna, chegou aos 80 anos sem memória do presente e lúcida do passado. Não reconhecia mais as pessoas queridas e no entanto contava histórias da cozinha de sua infância.
Freud & Ferenczi na Sicília – 2
As montanhas bávaras de Berchtesgaden serviram de cenário para a primeira viagem de Sigmund Freud com seu admirador Sándor Ferenczi. O médico vienense, criador da psicanálise, apreciava caminhar em região de montanha com a família e seus filhos praticavam alpinismo.
Em poucos meses de contato, o médico húngaro foi convidado a passar as férias de verão/1908 com a família Freud. De pronto, revelou-se exímio alpinista e conquistou a simpatia dos filhos e, por extensão, veio a ser um dos amigos eleitos e um dos maiores discípulos da causa/coisa freudiana e membro fundador da Associação Psicanalítica Internacional em 1910.