A formação do psicanalista e a ética da psicanálise: a questão da análise leiga

ceprc“A formação do psicanalista e a ética da psicanálise: a questão da análise leiga”

Marcio Mariguela

Psicanalista com graduação em Filosofia, doutor em Psicologia da Educação pela UNICAMP e autor do livro Psicanálise e Surrealismo: Lacan, o passador de Politzer (Jacintha Editores, 2007). marciomariguela.com.br

A polêmica sobre autorização para a prática da clínica psicanalítica eclodiu no IX Congresso da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) em 1925. O grupo majoritário de médicos praticantes da psicanálise exigiam que a condução do tratamento deveria ser instituída como ato médico, excluindo assim os não-médicos do exercício da função. Em julho de 1926, Theodor Reik, formado em psicologia e um dos psicanalistas pioneiros do grupo de Viena, foi acusado legalmente de charlatanismo porque praticava a psicanálise na condição de leigo.

Neste contexto, Sigmund Freud saiu em defesa de Reik e dos demais analistas não-médicos publicando o ensaio “A questão da análise leiga: diálogo com um interlocutor imparcial” e assumindo a psicanálise leiga e que sua sobrevivência na história só seria possível se não ficasse restrita ao ato médico: “leiga significa não praticada por médicos, e a questão seria se também aos não médicos deve ser permitido praticar a psicanálise”.

No contexto da realidade brasileira, o Conselho Federal de Medicina emitiu um parecer (35/12) sobre a prática da psicanálise e concluiu: “não é ato privativo de médico, respondendo penal, civil e eticamente por seus atos todos os que a praticarem”. Também não é uma atividade regulamentada pelo Estado e, portanto, cabe a cada um que se autorize a praticar a psicanálise responder por seus atos.

O encontro visa atualizar a questão da autorização com os princípios da ética da psicanálise estabelecidos por Jacques Lacan em seu retorno a Freud. Com isso, pretendo articular a formação do psicanalista com os efeitos de transmissão da psicanálise reinscrevendo a posição de Freud: a psicanálise é leiga.

Data e hora: 20/02/2016 — Sábado às 9h30        Local: Av. 27, 528 —Anfiteatro (Interfone no. 4)

email para inscrições: cepsicanaliticosrc@gmail.com

Vagas Limitadas!

GRUPO DE ESTUDOS EM LACAN – 1º SEMESTRE/2016

Seminário 5 – As Formações do Inconsciente

Dialética do desejo e da demanda na clinica e no tratamento das neuroses

Cronograma: 03 e 17/fevereiro; 02, 16 e 30/março; 13 e 27/abril;

11/maio; 08 e 22/junho

Quarta-Feira das 19h30 às 21h

Pagamento: R$ 60,00 a cada encontro

Local: Rua Saldanha Marinho, 792 – Piracicaba/SP

Inscrição para iniciantes:

Agendar entrevista através do email: mmariguela@gmail.com

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Amizade é uma festa

Amizade é uma festaNos rituais da passagem do tempo, as festas de fim de ano são invocadas para celebrar e reatualizar os laços afetivos familiares e de amizade. Confraternizar é renovar a esperança e o desejo de estar na companhia de quem reconhecemos a presença do amor.

Cultivar a amizade exige um trabalho preliminar: saber distinguir o amigo verdadeiro do bajulador, o falso. Este tema é recorrente na história da cultura desde as narrativas míticas, no pensamento filosófico e na literatura. Na atualidade, quando o valor da amizade é definido pela quantidade de seguidores que o indivíduo possui no facebook é conveniente resgatar o aspecto mínimo desta distinção.

Amizade é designada como um sentimento de grande afeição, apreço e reciprocidade. Sempre pareada com o amor, a amizade envolve relações entre os humanos como grupo social e foi objeto de inquietação ao longo da história. Ela tece laços entre membros de uma família, comunidade ou Estado. Quando relacionada aos graus de parentesco parece condicionada por consanguinidade e herança do nome. Neste caso, não dependem da escolha. Quando deliberada por exercício de liberdade individual, adquiri o estatuto de camaradagem e companheirismo.

Nos textos filosóficos que a tradição ocidental nos legou, o tema é abordado pelo elemento insidioso que subjaz à amizade: o bajulador, o lisonjeiro; o que se faz passar por amigo afim de angariar algum benefício, tirar proveito próprio. Qual critério permite reconhecer o verdadeiro amigo, distinguindo-o da figura do bajulador, do lisonjeiro? Observemos que a questão da verdade está no cerne do tema, pois há supostos amigos que acabam por se revelar inimigos. Saber distingui-los é fundamental.

Dentre os textos disponíveis, o tratado Sobre a Lisonja, escrito por Plutarco no século 1 de nossa era continua exemplar. Estabeleceu a tipologia das condutas e serviu como referência básica para o problema da distinção entre o amigo verdadeiro e as ações sórdidas do bajulador: o que alimenta nosso amor-próprio e nos conduz a sermos inimigos de nós mesmos.

Com a premissa: “a amizade deixa-nos facilmente cegos a respeito do que amamos”, Plutarco constatou que o “amor-próprio oferece à bajulação um vasto campo para nos atacar, e sob a aparência da amizade, dominar nossa confiança. Esse amor a si mesmo nos transforma em primeiro e maior dos bajuladores e facilita a entrada de estranhos, para obtermos deles os testemunhos e a aprovação da justa opinião que este amor-próprio tem de si mesmo”.

Depois de discorrer sobre as características próprias dos bajuladores, Plutarco retornou à premissa inicial: “é preciso arrancar do coração o amor-próprio e a boa opinião sobre nós mesmos, pois estes são nossos primeiros aduladores e abre a porta aos bajuladores estranhos, tornam-nos presas fáceis de seduzir”. A advertência do filósofo é de grande relevância para os tempos atuais. Pois, “ao considerarmos sempre nossas imperfeições, nossos defeitos e nossos vícios, sentiremos que temos necessidade, não de um bajulador que nos distribua elogios, mas de um amigo sincero que nos aponte os erros com franqueza”.

Neste ponto, o texto de Plutarco muda a direção argumentativa e caracteriza o amigo sincero, verdadeiro, como aquele que fala com franqueza. “Há poucos que tem a coragem de ser francos com seus amigos, que não procuram ao invés disso bajulá-los. E mais raro ainda aqueles que sabem empregar adequadamente a franqueza, não a utilizando com amargor e censuras. Pois, acontece com a franqueza mal administrada o mesmo que com certos remédios: ela aflige, atormenta inutilmente, e realiza dolorosamente o que a bajulação consegue com agrados. As censuras, assim como os elogios inoportunos, são sempre nocivas. É preciso que a franqueza seja temperada pela doçura”.

Boas festas na companhia dos verdadeiros amigos!

Fonte:
Revista Arraso / Festas
Ano 7; nº 58; 2º semestre/2015
Ao Gato Preto Editora – Piracicaba/SP
Ilustração: Maria Luziano

Aula Final do Seminário: “O Caso Sandor Ferenczi” – 2015

Data: 14/novembro – das 10 as 12h

Local: Tykhe Associação de Psicanálise de  Campinas

Saiba mais: http://www.tykhepsicanalise.com/#!seminarios/c1pbz

Sandor Ferenczi no divã de Sigmund Freud

A solicitação, explícita e intencional, de análise com Freud, formulada pelo médico hungaro Sandor Ferenczi na carta de 26/12/1912 é um marco no histórico da relação entre os dois amigos psicanalistas no período de 1908 a 1933. Entre Viena e Budapeste o serviço postal foi intenso. Ao longo das apresentações em forma de Seminário venho sustentanto uma hipótese interpretativa deste precioso material de pesquisas: Correspondencia Completa entre Freud & Ferenczi.

A demanda explicita de análise só foi possível quando a triangulação Freud-Jung-Ferenczi se rompeu. Há uma seqüência de cartas de Freud que antecedem a histórica carta de dezembro e são relevantes para acompanhar o desdobramento derradeiro: a ruptura com Carl Gustav Jung. e sua expulsão do movimento psicanalítico em 1914. Para concluir, publicamente, este percurso de trabalho com as cartas, vou resgatar os predicados atribuídos por Freud ao princípe herdeiro e, sobretudo, o modo como instigou o jovem Dr. Ferenczi ao ataque.

Exemplo:

Nas cartas deste período, Ferenczi relatou a dolorosa ladainha de sintomas conversivos implorando ao Professor tratamento para seu sofrimento. Freud, por sua vez, estava ocupado demais com sua situação em relação a Jung. Na carta de 28/07/912 deixou transparecer sua posição na transferencia com o amigo hungaro: “sigo com interesse todos os relatos sobre os seus acontecimentos mais intimos, mas continuo a pensaer que o único dever de amigo é deixá-lo em paz”. Na sequencia narrou amenidades de sua vida particular voltando ao tema principal: “no que diz respeito a Jung, agora está tudo totalmente claro”. Reproduziu a carta enviada por Jung e concluiu: “Jung está vivendo em neurose galopante. Seja como for que isso acabe, minha intenção de fundir judeus e goim a serviço da psicanálise parece-me, neste momento, fracassada (…) Envie lembranças a Frau G. de minha parte e não leve nada tão a sério. Só depois que que podemos saber o que foi a felicidade ou a infelicidade, o infortúnio”.

Em resposta, Ferenczi exultou: “Fico muito feliz que tenha aceito facilmente a defeccão de Jung. Isto prova que seu desesperaado esforço em criar um sucessor pessoal foi definitivamente deixado de lado e que o Sr. abandona a causa da psicanálise à sua propria sorte. Jung trata a psicanálise como uma disputa pessoal com o Sr. e não comoa algo científico e objetivo. Os demais suícos são submissos a ele e no fundo são todos anti-semitas”.

Na carta de 07/12/1912 Ferenczi inicia se desculpando pelo longo silencio epistolar em “consequencia da doença que me abate; eu não queria inquietá-lo com isso. Agora estou melhor e posso relatar-lhe em detalhes o histórico de sua evolução. Os sintomas corporais levaram a mim e ao médico especialista que me atendeu a suspeitar de Lues. A partir daí, mergulhei numa profunda depressão, algumas noites de insonia com taquicardia, emagrecimento e fraqueza muscular. O medo da sífilis se revelou, posteriormente, infundado; mas os sintomas persistiam”. Concluiu: “se houve um fator psíquico na patogenese de minha doença e se o seu objetivo foi reaproximar-me de Frau G., então a doença cumpriu seu dever. Os generosos atos de cuidado e atenção que ela me dedica tornaram-me mais receptivo ao amor maternal  (…) espero que pouco a pouco eu possa relatar mais da ciência e menos de doenças”.

A resposta de Freud veio certeira:”nunca acreditei, nem por nenhum instante, em sua sífilis. Há um traço hipocondríaco evidente na história de sua doença. Sou egoista o bastante para lhe desejar, justamente agora, uma pronta recuperação”. Em seguida, engatou novamente a querela com Jung: “ele é um doido, suas cartas oscilam entre a ternura e a arrogância presunçosa e todos os relatos (Jones, Brill) mostram que ele considera seus erros como grandes descobertas”.

Na sequencia, a carta revela surpreendente exercicio de autoanálise: “Estou novamente com aptidão para o trabalho e reiniciei a escrita do Totem e Tabu que estava boqueada. Resolvi analicamente a crise de vertigem em Munique reconhecendo um significado comum a todas as crises somáticas: as experiencias de morte que vivenciei precocemente”. Angustia atuante no contexto espécifico da vida de Freud: seus tres filhos estavam prestes a serem convocados para o campo de batalha da Primeira Guerra Mundial.

No estilo post scriptum, arrematou: “envie minhas devotas saudações à sua fiel enfermeira (Frau G.)”.

Psicanálise e Filosofia