
Friedrich Nietzsche, em Turim no de 1887, antes do colapso neurológico que o deixou em estado vegetativo por dez anos, escreveu: “Comparada com a música, toda comunicação com palavras é vergonhosa; as palavras diluem e brutalizam; as palavras despersonalizam; as palavras tornam o incomum comum”. Assim Falou Zaratustra: um livro para todos e ninguém, escrito em quatro partes no período de 1883 a 1885, restitui a musicalidade das palavras. Os cantos de Zaratustra são palavras personalizadas em notas musicais. Como um escultor, Nietzsche lapidou a escrita até a sua condição genética: a oralidade, o som das palavras e sua melódica composição. Suas palavras portam a condição primária da linguagem: o ser humano, o bicho falante, é imerso pelo som no oceano da língua. Somos batizados na linguagem, imersos na sua correnteza de significados e sentidos.