All posts by Márcio Mariguela

Psicanalista com formação em filosofia e doutor em psicologia da educação pela Unicamp.

A Língua Paterna do Amor

Seguimos catalogando as paixões. Dado o soberano valor atribuído ao amor, vamos abordá-lo pela linhagem (linguagem) paterna. Nossa referência é o mito, pois ele contém a primeira forma de representação das paixões. Muito antes da emergência do pensamento filosófico na Grécia (século 4 a.C) e do pensamento científico (século 17), os humanóides contraíram e construíram narrativas mí(s)ticas para designar as paixões.

Nas edições anteriores da Arraso destaquei a filiação de Eros e sua transmissão pela língua materna. O ponto de ancoragem dessas reflexões nos foi transmitido por Platão no diálogo O Banquete. Relembrando: cada um dos convivas deveria fazer um elogio ao deus Eros. Estrategicamente, Platão deixou Sócrates por último. E, é claro, o irônico personagem arrasa. Sócrates contou ter ouvido de uma mulher, Diotima (sacerdotisa do templo de Afrodite) a seguinte história da fecundação de Eros: num banquete em comemoração o nascimento de Afrodite (deusa da beleza e dos prazeres), Póros se embriagou do néctar e adormeceu no jardim da morada de Zeus. Por ali perambulava Pênia, em sua penúria, nutria a esperança de recolher as migalhas do festim. Ao ver o belo Póros adormecido desejou ter um filho dele. Deitou-se ao seu lado e concebeu Eros, o deus do Amor. Eros é filho de Pênia com Póros.

Continue reading

Don Juan, o burlador de Sevilha (7)

Da versão francesa do mito Don Juan, encenada pela “comédie française” de Molière, à versão italiana na “commedia dell’arte”. Don Juan é um personagem teatral esculpido na letra espanhola como El Burlador de Sevilha. Dentre as dezenas de peças teatrais em solo italiano, desde o alvorecer do século 17, destaco apenas um aspecto do libreto Don Giovanni escrito por Lorenzo da Ponte. O libreto foi musicado por Wolfgang Amadeus Mozart compondo a monumental ópera que estreou em Praga em 1787. Seguindo a proposta desta série, atenho-me à letra, ao aspecto literário do libreto e, com isso, sustento nossa premissa inicial: Don Juan é o primeiro mito moderno. A popularidade do mítico burlador na Itália é atestada desde 1699 com a peça musical: O Ímpio Punido composta por Alessandro Melani com libreto de F.Acciaiuoli. Esta versão também é conhecida como O Convidado de Pedra. Em 1736, Goldoni escreveu o livreto Don Giovanni, o Dissoluto Punido, atribuindo ao mítico sedutor um julgamento moral predominante em outras versões: o destaque aqui é a punição (juízo final) pelos crimes contra a honra cometidos pelo galante conquistador de mulheres.

Continue reading

Don Juan, o burlador de Sevilha (6)

Seguimos com os comentários da versão francesa do mítico Don Juan escrita pelo dramaturgo Molière no século 17. A peça teatral, Don Juan ou o

Retornemos ao argumento sobre o casamento como estratégia de conquista do habilidoso sedutor. Leporelo diz a Gusmão (servo de Dona Elvira): “para realizar sua paixão predominante ele não hesitaria em casar também contigo, teu gato e o teu sapato. Um casamento não lhe custa nada; é só uma estratégia para atrair as tolas; casa como respira, sem mesmo perceber”. A paixão predominante de Don Juan é seduzir para incluir na lista das mulheres conquistadas: mais uma. A sedução é a arte da conquista. Nesta perspectiva, Don Juan é um artista.monarquia francesa. Festim de Pedra, realizou a desconstrução da moral religiosa que legitimava a sociedade aristocrática. Tal acontecimento ocorreu no interior da própria sociedade de corte, no Palácio Royal em Paris, morada do Cardeal Richelieu, o grande articulador político, estrategista e retórico conselheiro da

Continue reading

Don Juan, o burlador de Sevilha (5)

No artigo anterior, destaquei a versão francesa de Don Juan escrita e encenada por Molière no Palais Royal de Paris em janeiro de 1665, bem como seu contexto histórico/literário. Molière capturou a seiva da versão espanhola do Burlador de Sevilha e incorporou as diferentes interpretações do mítico Don Juan que circulavam pela Europa com o título O Convidado de Pedra. O Burlador tem como tema central a questão da honra; no Convidado o tema é a hospitalidade: a estátua do comentador assassinado por Don Juan é a voz do além-túmulo conclamando o arrependimento ou a danação derradeira.

Continue reading

Catálogo das paixões – A Língua Materna do Amor

Na edição anterior da Arraso iniciei a narrativa do amor como a paixão por excelência. Os gregos designavam páthos o estado de transbordamento de emoções e sentimentos incontroláveis. O sujeito apaixonado encontra-se num estado afetivo de perturbação, transtorno e obscuridade afetando seu juízo crítico e consciente. Eros, o deus do amor foi representado na mitologia como o causador dos estados patológicos.

Destaquei o diálogo O Banquete de Platão como registro de nascimento do Amor (Eros). Sócrates contou que ouviu da sacerdotisa Diotima a seguinte narrativa: por ocasião de uma festa para comemorar o nascimento de Afrodite, Póros se embriagou do néctar dos deuses e adormeceu no jardim da morada de Zeus. Por ali perambulava Pênia, que em sua penúria, nutria a esperança de obter algumas sobras do festim. Ao ver o belo Póros adormecido, tomou a decisão num instante: desejou ter um filho com ele. Deitou-se ao seu lado e concebeu Eros, o deus do Amor. Desse modo, Eros é filho de Póros de Pênia. Póros significa passagem, caminho, via de comunicação, ponte, conduto; e também recurso, fartura, excesso, transbordamento; e Pênia significa miséria, pobreza, penúria.

Continue reading