
Textos utilizados:
https://marciomariguela.com.br/tristeza-e-depressao
https://marciomariguela.com.br/o-tempo-da-depressao-e-a-depressao-do-tempo

Outro dia recebi um chiste pelo WhatsApp: o garoto chega ao pai que está sentado, lendo o jornal, e pergunta: pai eu tenho laptop, ipad, tablet, mp3, notebook, smartphone, e você, o que usava na escola? Resposta do pai: a cabeça.
“A tristeza é senhora; desde que o samba é samba é assim” cantou o poeta. Todos querem a alegria e, de preferência, o tempo todo. Como todos os afetos, a alegria não existe sem a tristeza; o amor sem o ódio; a coragem sem a covardia. Para ser alegre é preciso ser triste; caso contrário, não saberíamos distinguir um estado psíquico de outro.
Em dezembro de 2009, David Goldberg, psiquiatra do King’s College de Londres, esteve no Brasil como convidado do Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Em sua conferência, interrogou seriamente o Manual de Diagnósticos e Estatísticas (DSM) da Associação Americana de Psiquiatria e o lugar do sofrimento psíquico na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde: “é urgente delimitar o que define a doença mental, e a melhor maneira de fazer isso é rotular apenas coisas para as quais haja evidência de que os tratamentos atuais com psicotrópicos sejam melhores do que placebo”.
Numa cena cotidiana, ouvi um garotinho dizer à mãe: ‘deixa de ser neurótica, não precisa se preocupar tanto’. Houve um tempo em que os sofrimentos psíquicos eram diagnósticos na categoria psicose e neurose. Atualmente há uma miríade de diagnósticos e consequentes remédios psicoativos.
O designativo neurótico passou adjetivar estados psíquicos e comportamentais no discurso popular e desapareceu do Manual de Diagnóstico da Associação de Psiquiatria Internacional. Diferentes autores do discurso psicanalítico interrogaram o apagamento da neurose como categoria diagnóstica no atual Manual, conhecido como DSM-5.
A história de Sigmund Freud e seus amigos/discípulos é um capítulo relevante para apreender a emergência histórica da prática clínica inaugurada pelo neurologista vienense inventor da psicanálise. A capacidade retórica de Freud surpreende e seus livros “A Interpretação dos Sonhos”, “Psicopatologia da vida cotidiana” tornam-se acontecimento.
A teoria do inconsciente formulada pelo Dr. Freud, através de escuta clínica dos diferentes modos de sofrimento psíquico, atravessou as fronteiras da Áustria e despertou interesse de médicos psiquiatras de vários países da Europa Ocidental e Oriental (já havia tradução em russo no início do século 20). Em 1909, Freud e seus amigos (Carl Gustav Jung, Sándor Ferenczi, Ernest Jones) cruzaram o oceano atlântico e conquistaram a América do Norte. Reza a lenda, que Freud disse aos companheiros de viagem: “Eles não sabem que estamos trazendo a peste”.