A palavra
paixão carrega consigo dupla rede de significação: por um lado, estar apaixonado é sentir um amor ardente, um estado de arrebatamento, contentamento, entusiasmo, bem querer; por outro, é provocar aflição, flagelo, tristeza intensa em alguém ou a si mesmo, mal querer. Amar e odiar são paixões primárias mobilizadoras de afetos e definem a relação pulsional entre o Eu e o objeto.
O problema consiste quando o próprio Eu é o objeto de investimento do ódio. Pode parecer trivial quando no momento de raiva, a sentença “Eu me odeio” é enunciada. Há, no entanto, uma dimensão inconsciente deste ódio a si que se revela na forma de um gozo masoquista: o prazer em sofrer, em imputar-se sofrimento sem causalidade somática, orgânica. Obter prazer na dor é um autoflagelo.
O bicho falante é o único ser vivo submetido à ordem simbólica e ao comércio de palavras. Certamente há linguagem em todas as espécies: cada uma delas possui um código de comunicação que lhe é própria. Com a espécie humana não é diferente: estamos submersos num oceano de signos, símbolos e códigos linguísticos. Na classe dos humanos há um fenômeno que atraiu a libido de incontáveis narradores para desvendar, desvelar o mistério dos mistérios: a multiplicidade de línguas maternas. Cada agrupamento hominídeo criou seu próprio código de comunicação, sua linguagem. Há linguagens na linguagem.