Category Archives: Artigos

Don Juan, o burlador de Sevilha (1)

No cenário de Sevilha, um homem consagrado a Deus escreveu peças teatrais para transmitir os valores da cristandade ao povo espanhol. No texto El Burlador de Sevilha, encontra-se um personagem que personificou os valores da modernidade ainda em estado germinal. A eterna batalha do Bem contra o Mal adquiriu neste burlador um novo e inusitado estatuto antropológico. No alvorecer da Idade Moderna, Don Juan Tenório foi elevado à categoria mítica de herói combatente: o que fez de suas conquistas, o Sumo Bem.

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A História do Olho em Sevilha (4)

No ensaio filosófico O Erotismo publicado em 1957, Georges Bataille distinguiu, numa relação dialética, dois termos (interdito e transgressão): “A transgressão excede sem destruir um mundo profano de que ela é o complemento. A sociedade humana não é somente o mundo do trabalho. Simultaneamente ela é composta pelo mundo profano e pelo mundo sagrado, que são as duas formas complementares. O mundo profano é o dos interditos. O mundo sagrado abre-se a transgressões limitadas. É o mundo da festa, dos soberanos e dos deuses”. A touromaquia (arte de torear) foi concebida pelo autor como uma festa sagrada num mundo profano. No desfecho da novela erótica A História do Olho, como cenografia há uma arena de touros (tourada). O erotismo adquiriu, com Bataille, um estatuto de experiência sagrada no profano: um festim estético sensual.

Após percurso por alguns lugares de Sevilha, chegamos ao conteúdo do livro A História do Olho. Como destacado no artigo anterior, o livro foi escrito por Bataille em 1927, por indicação

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A História do Olho em Sevilha (3)

In memorian a Paco de Lucía e sua paixão flamenca

A Catedral de Sevilha é uma orgia visual: o olho é inundado com uma polifonia de imagens, cores e formas. Construída sobre a mesquita maior almohade do século 9, a Catedral conservou de seu passado muçulmano o Patio de los Naranjos (pátio das laranjas) onde os fiéis de Allah lavavam, na fonte central, as mãos e os pés antes das orações. Com ascensão dos reis católicos ao poder político, o cristianismo tornou-se a força hegemônica outrora exercida pela cultura islâmica. A mesquita se transformou num dos mais belos templos cristão.

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A História do Olho em Sevilha (2)

Leonardo da Vinci, com seu inquietante olhar, escreveu: “Não vês que o olho abraça a beleza do mundo inteiro? O olho é a janela do corpo humano, por onde a alma especula e frui a beleza do mundo. Ó admirável necessidade! Quem acreditaria que um espaço tão reduzido seria capaz de absorver as imagens do universo?”. Desde os mitos fundadores da civilização ocidental ao pensamento filosófico e literário, o olho é representado como janela da alma e espelho do mundo.

No livro A Viagem: Caminho e Experiência (Editora Aleph, 2013), Luiz Gonzaga Godoi Trigo traça uma genealogia da experiência histórica de viajar, percorrer caminhos estranhos às nossas experiências cotidianas, marcadas pela repetição. Viajar é vivenciar, através de experiência sensual, lugares diferentes. Livre-docente em Lazer e Turismo pela ECA/USP, Trigo, utilizando fontes primárias de relatos de viajantes desde a Antiguidade até o tempo atual dos blogs e facebook, se espalha em narrativas com acuidade de observador turismólogo apaixonado por filosofia, literatura, história e antropologia. No aforismo de Plotino (tradutor de Patão no alvorecer da era cristã), “o olho não vê o que o espírito não sabe”, o autor define o pressuposto básico do livro. Eis a diferença entre turista e viajante: o turista conta o que conheceu; o viajante o que reconheceu.

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O desejo e sua insistência

O desejo insiste, o sintoma resiste. A muralha de resistência que construímos para nos proteger do desejo denota os sintomas do sofrimento psíquico. Pedra por pedra, tijolo por tijolo, a educação moral vai sedimentando as resistências, opondo barreiras e defesas contra o ataque dos desejos. É neste conflito irremediável e deveras inconsciente que nos tornamos sujeitos. O desejo não tem objeto definido, somente objetivo: ofertar experiências de prazer. Há insistência do desejo em cumprir seu objetivo: o prazer da realização. A realização do desejo ocorre em ato não em intenção. O plano da intencionalidade é habitado pela vontade e o desejo não é vontade porque é sua propriedade desejar para além da vontade.

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