Category Archives: Artigos

O Tempo e o Templo (2)

O templo é o lugar primevo do tempo mítico narrado pela origem dos deuses. A autoridade da narrativa estava determinada pela figura do sacerdote ou sacerdotisa que falavam em nome das divindades, predizendo o futuro pelo passado. Sendo, o tempo presente, o acontecimento da narrativa. Aristóteles afirmou em sua Ética à Nicômaco que “o agradável é a atividade do presente, a esperança do futuro e a memória do passado”. O tempo marca o lugar do agradável, do aprazível, da esperança e da memória.

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O Tempo e o Templo (1)

O lugar onde o tempo adquiriu o caráter de eternidade é no templo. No templo, o tempo é durável, permanente e transcendente: nele o tempo não passa. Não se sai de um templo do mesmo modo em que se entrou. Sua função primordial é realizar o que os antigos chamavam de metanóia: transformação interior do pensamento ou caráter, pois no templo o tempo está contido para que qualquer um possa vivenciar o eterno como experiência espiritual.

Inicio esta série narrando a experiência do tempo como exercício de espiritualidade: transformação de si mesmo. Por vários templos que conheci, por vivência em lugares diversos por onde passei e também em literaturas e pinturas, como formas de escrita da inscrição no tempo. Quer sejam no aspecto arquitetônico,iconográfico ou literário, o templo é o lugar por excelência da figuração do tempo como eternidade.

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Saber e sabor: filosofia culinária

Desde criança aprendi a conjugar saber e sabor. Na escola primária, Dona Wandira ensinava que a leitura era o alimento para o espírito. No dia em que ganhei meu primeiro livro, ela construiu a mais bela metáfora que marcou decisivamente minha existência: um livro é semelhante a um prato de comida. Glutão que ainda sou, compreendi de pronto a metáfora e não há um só dia que passo sem ler. Alimento-me com palavras do mesmo modo que busco no ato de alimentação os sabores que me proporcionem o prazer do paladar.

Descendente de famílias italianas de pai e mãe, as casas de minha infância possuíam ampla cozinha, pois era o espaço de encontro e convivências. Tudo acontecia na cozinha: o fogão (à lenha e depois a gás) era uma espécie de altar onde se cultivava e cultuava o gesto valoroso da alimentação. Quando visitávamos parentes ou amigos, ao redor da mesa as relações eram tecidas e enlaçadas. Não importava a ocasião, estar junto era sempre motivo para comer.

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Amor e Ódio: As Paixões Primárias

Nas edições anteriores da Arraso iniciamos o catálogo das paixões com o afeto mais exaltado na hierarquia das emoções: o amor. Ocorre que o amor nunca vem sozinho – aliás, como a maioria dos afetos. As paixões sempre formam um par antagônico e antinômico sem o qual não haveria conflito. As contradições entre estados afetivos constituem o elemento primário das paixões.

Na cultura grega clássica a palavra páthos designava um estado de transbordamento de emoções e sentimentos incontroláveis. Nas narrativas míticas e no discurso filosófico desde a antiguidade, pathós era uma forma de nomear o conflito entre estados afetivos que causam perturbação, transtorno e obscuridade, afetando o juízo crítico e consciente. Os conflitos entre estados afetivos contraditórios causam os maiores transtornos. O caso exemplar é a oposição entre amor e ódio.

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O Uso dos Prazeres

Na Antiguidade grega e romana havia o preceito ético do cultivo dos prazeres sensíveis ligados a um conjunto de técnicas que auxiliavam no exercício de formação do caráter e da virtude. Viver era concebido como uma arte, exigindo de cada indivíduo esforço contínuo em transformar cada gesto do cotidiano num modo de expressão da beleza, bem estar e convivência pacífica consigo mesmo e com os outros. O cultivo da arte de viver recebeu o nome de aphrodisia, o uso dos prazeres.

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