All posts by Márcio Mariguela

Psicanalista com formação em filosofia e doutor em psicologia da educação pela Unicamp.

Os gatos de Éfeso

Outrora, naquele corredor de ruínas, havia uma grande cidade (polis) governada pelos Gregos, depois pelos Romanos, os Jônios, os Lídios e os Persas. Atualmente é moradia de dezenas de gatos e local de peregrinação dos apaixonados pela história das civilizações e cristãos em visitação à casa de pedras no alto da colina, onde o discípulo amado João levou Maria, a mãe do crucificado, para passar os seus dias finais na terra.

Banhada pelo mar Egeu, Efhesus era porta para os gregos adentrarem no Oriente e franqueou, tempos depois, o domínio romano na Ásia menor. O que restou em pedras memoriais pertence atualmente ao distrito de Esmirna, próximo a Kusadasi, território da Turquia. Os gatos que por lá habitam possuem a majestade dos tempos de glória da cidade. Deitados em colunas de templos e palácios, em fragmentos de esculturas e relevos, cada felino adquiri uma beleza composta. As ruínas emolduram de forma simétrica a beleza dos gatos.

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Escher - Two Birds 1938

Curso De Extensão Em Psicanálise: Os Escritos De Jacques Lacan

OS ESCRITOS DE JACQUES LACAN

Módulo 3: A fala vazia e a fala plena na realização psicanalítica do sujeito

Coordenação: Márcio Mariguela

Cronograma:

08 e 22 agosto; 05 e 19 setembro; 03 e 17 outubro; 07 e 21 novembro

Quarta-Feira: 19h30 às 21h30

Local: Rua Saldanha Marinho, 792 – Piracicaba/SP

Pagamento: R$ 600,00 por 8 aulas de 2 horas

Inscrições até 07/agosto/2018 por email: mmariguela@gmail.com

Vagas limitadas Continue reading

M. C. ESCHER RIND 1955

GRUPO DE ESTUDOS EM FREUD 2º semestre – 2018

A SEXUALIDADE NA ETIOLOGIA DAS NEUROSES:

GENEALOGIA DO SUPEREU

Coordenação: Márcio Mariguela

 

Cronograma:

01, 15, 29 agosto; 12 e 26 setembro;

10 e 24 outubro; 14 e 28 novembro

Quarta-Feira das 19h30 às 21h30

Pagamento: R$ 70,00 a cada encontro

Local: Rua Saldanha Marinho, 792 – Piracicaba/SP

Inscrição para iniciantes: mmariguela@gmail.com

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Melancolia do Bósforo

Palácio Dolmabahçe
lado Ocidental, ao fundo Palácio Dolmabahçe

Nas águas profundas do canal de Bósforo atravessam cargueiros dos mares do Norte e do Sul. Lá onde o Oriente faz sua aurora: o canal corta a cidade de Istambul no extremo do Ocidente.

Istambul contempla o canal com a melancolia dos que se sabem em trânsito. Outrora Constantinopla, a Roma Oriental, conquistada pelo Império Bizantino, conquistada pelo Império Otomano e transformada em República no botim da Primeira Guerra Mundial. Sua condição de estar entre o fim do Ocidente e o começo do Oriente deixou cicatrizes profundas, verdadeiros registros históricos por onde navegam o comércio entre os dois continentes.

lado Oriental
lado Oriental

Situada entre a Europa, a Ásia e o Oriente Médio, a Turquia é o umbigo da civilização. Na margem ocidental do canal, a Fortaleza da Europa, construída por Mehmet II em 1452, no ponto mais estreito, é o símbolo inicial da conquista de Constantinopla. Próximo deste marco, o palácio Dolmabahçe se apresenta como símbolo do Império Otomano no século 19 e registro do último sultão no governo político.

Fortaleza da Europa, no lado Ocidental, símbolo da conquista
Fortaleza da Europa, no lado Ocidental, símbolo da conquista

Conquistar Constantinopla e nomeá-la Istambul inscreveu um acontecimento histórico de grandes proporções na interface cultural. O sultanato implantou a crença muçulmana e o seu ato fundador foi transformar a igreja da Santa Sabedoria, Haghia Sophia, símbolo máximo da cristandade no Império Bizantino, em uma mesquita, construindo minaretes e fontes para ablução, ritual de higienização preparatório para adentrar no templo.

Haghia Sophia transformada em mesquita
Haghia Sophia transformada em mesquita

No alto da colina, o palácio Topkapi é o registro da sede do governo otomano até o século 19 quando o sultão foi seduzido pela arquitetura ocidental e construiu o palácio Dolmabahçe. Nestes dois marcos históricos podemos ler o percurso de ocidentalização de um povo nômade oriundo da Ásia Central.

O escritor turco Orhan Pamuk narrou a decomposição do Império Otomano em lembranças de infância, onde um garoto atento e sensível capturava no seu microcosmo familiar os efeitos desta ocidentalização dos habitantes do canal do Bósforo.

Istambul: Memória e Cidade, Pamuk
Istambul: Memória e Cidade

No livro, Istambul: Memória e Cidade, Pamuk citou, em epígrafe: “a beleza de uma paisagem reside em sua melancolia”. Envolto ao tema da melancolia, o leitor é apresentado à paisagem do Bósforo como lugar instável entre o passado e o presente. “Enquanto a cidade fala da derrota, destruição, privação, melancolia e pobreza, o Bósforo canta cheio de vida, prazer e felicidade. Istambul extrai sua força do Bósforo”.

Hüzün, palavra turca para melancolia, transmite a sensação de perda espiritual profunda e o mesmo tempo, marca o sofrimento diante de um passado que não tem mais lugar no presente. A melancolia é bruma a envolver uma cidade e a população que nela tecem suas existências. “hüzün é tão densa que quase se torna palpável, e quase a vemos formar uma película que cobre o povo e suas paisagens; é um sentimento compartilhado, uma atmosfera comum a milhões de pessoas. Em Istambul os restos de uma gloriosa civilização do passado são visíveis por toda parte”.

Imagens: Márcio Mariguela