Ler e viajar são minhas paixões predominantes cultivadas desde a infância. Na verdade, descobri o alfabeto junto com o mapa do mundo. Lembro-me que na sala de aula do 1º ano do Grupo Escolar (assim se chamava o ensino fundamental) havia um grande mapa fixado na parede lateral. Enquanto adquiria as primeiras lições de alfabetização, entrava em devaneios através de linhas formando contornos coloridos e aos poucos fui aprendendo que se tratava de continentes, países, oceanos; territórios com outras culturas e povos habitantes deste deslumbrante planeta chamado Terra. Não demorou a perceber que a leitura é também um modo de viajar. Desde então os conhecimentos de história, geografia e literatura se tornaram objeto de meu desejo libidinal.
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Luta antimanicomial e experiência da loucura
Don Juan, o burlador de Sevilha (10)
Chegamos ao final desta série sobre o mítico burlador representante do arquétipo herói moderno da cultura ocidental. Para encerrar, apresento a versão
“Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido” do aclamado escritor português José Saramago. O livreto foi redigido atendendo ao convite do compositor Azio Corghi apaixonado pela literatura de Saramago. Ambos recriaram, com mestria e sagacidade, a clássica história do licencioso herói de Sevilha, dando-lhe a absolvição final. A ópera foi encenada no Teatro alla Scala de Milão em 2003.
Após ter recebido a notícia da atribuição do Prêmio Nobel de 1998 ao escritor português, Corghi enviou-lhe a seguinte mensagem: “Você me possibilitou dizer, através da música, aquilo que penso dos acontecimentos do mundo”. Por sua vez, Saramago expressou admiração pela obra do compositor italiano: “A arte, a amizade, a generosidade de Azio Corghi trouxeram à trajetória da minha existência uma riqueza que eu jamais teria adquirido sozinho. Graças a Corghi, a urdidura das palavras que criei tornou-se música, tornou-se canto. Foi um feliz encontro, o nosso. Creio que vale a pena conservar o entrelace que somos, ele e eu”.
Don Juan, o burlador de Sevilha (9)
Em solo dinamarquês, o mítico Don Juan aportou pelas mãos do jovem, filósofo e teólogo Sören Kierkegaard ao escrever Diário de um Sedutor em 1843 e publicá-lo com o heterônimo Johannes de Silentio. Eleito precursor da filosofia existencialista, sua obra contém o enlaçamento decisivo da filosofia com a literatura.
Nascido em Copenhague, Kierkegaard era filho de pastor luterano e rico comerciante de lã. Sua infância marcada pelo temor a Deus e sentimento de culpa que o mergulhava na angústia e melancolia. Era cocho e com precária autoestima. Ingressou na universidade com o propósito de estudar teologia e em 1837 conheceu Regina Olsen, jovem de 17 anos com quem iniciou namoro, prometendo fidelidade e casamento após concluir os estudos. A morte do pai interrompeu os planos do jovem Sören.
Don Juan, o burlador de Sevilha (8)
Na terra de Shakespeare, o
mito do burlador de Sevilha aterrissou tardiamente. Dominados pela potência moderna dos heróis tragicômicos shakespeariano, os ingleses foram
atingidos em 1818, pela meteórica obra Don Juan escrita por George Gordon Byron, o mais transgressor dos poetas do romantismo na Grã Bretanha, conhecido como Lord Byron. No solo do Reino Unido, o mito foi narrado de forma suntuosa: epopéia cômica composta em 16 cantos (interrompidos com a prematura morte do autor aos 36 anos) com estrofes de 8 versos de 12 sílabas. Este estilo lhe permitiu esculpir o mítico sedutor licencioso de Sevilha numa estatura de herói grego clássico: Don Juan, um patético e romântico Odisseu moderno.