
O lugar onde o tempo adquiriu o caráter de eternidade é no templo. No templo, o tempo é durável, permanente e transcendente: nele o tempo não passa. Não se sai de um templo do mesmo modo em que se entrou. Sua função primordial é realizar o que os antigos chamavam de metanóia: transformação interior do pensamento ou caráter, pois no templo o tempo está contido para que qualquer um possa vivenciar o eterno como experiência espiritual.
Inicio esta série narrando a experiência do tempo como exercício de espiritualidade: transformação de si mesmo. Por vários templos que conheci, por vivência em lugares diversos por onde passei e também em literaturas e pinturas, como formas de escrita da inscrição no tempo. Quer sejam no aspecto arquitetônico,iconográfico ou literário, o templo é o lugar por excelência da figuração do tempo como eternidade.
Desde criança aprendi a conjugar saber e sabor. Na escola primária, Dona Wandira ensinava que a leitura era o alimento para o espírito. No dia em que ganhei meu primeiro livro, ela construiu a mais bela metáfora que marcou decisivamente minha existência: um livro é semelhante a um prato de comida. Glutão que ainda sou, compreendi de pronto a metáfora e não há um só dia que passo sem ler. Alimento-me com palavras do mesmo modo que busco no ato de alimentação os sabores que me proporcionem o prazer do paladar.