All posts by Márcio Mariguela

Psicanalista com formação em filosofia e doutor em psicologia da educação pela Unicamp.

Quando o inverno chegar

Quando o Inverno Chegar

O inverno é a estação temporal que desperta o desejo de se aninhar. Ajuntamento é o outro nome do inverno. As pessoas se encolhem, se escondem, se aquecem e se recolhem. O verão é expansivo, despudorado, sem roupa. O inverno é elegante: casaco, gorro, bota, chapéu.

Nas regiões tropicais as estações do ano parecem biruta. No mesmo dia pode ocorrer as quatro estações. Os países do Norte também estão confusos na marcação do tempo: primavera, verão, outono, inverno. Por lá, o cenário pintado pelas forças da natureza era bem mais definido do que atualmente. Dizem ser resultado do efeito estufa.

O inverno é um significante que nomeia para além da baixa temperatura. Inverno é um estado de espírito. Um modo de ser. Os poetas falam de um espírito invernal. Pintores olhavam para o cenário invernal e inventaram inusitadas tonalidades com a cor branca.

Um exemplo: Vincent van Gogh pintou dezenas de telas invernais. A primeira contém, em germe, a genialidade do iniciante holandês. Foi seu primeiro inverno em Paris (dezembro/1886) e também o encontro com o impressionismo que inaugurou a pintura moderna. A cena escolhida é o alto da colina de Montmartre. O mirante é uma das mais belas vistas da capital francesa.

Quatro luminárias enfileiradas formam a perspectiva. Ao fundo, cinco personagens agasalhados contemplam a névoa gélida. Dois amigos, grudados, olham o nada que a névoa encobre. Ao lado, um senhor se esforça para ler o jornal. No ponto mais alto, num tablado, uma dama de vestido azulado se aconchega num cavalheiro de cartola. Toda cena é banhada num tom cinzento invernoso. A mestria do pintor vacilante está no modo como retratou o vento. O expectador é capaz de sentir o frio retratado na tela.

Passear no inverno é atividade exigente. As condições externas são desafiadoras e o transeunte precisa encapotar-se para enfrentar o frio cortante. Mesmo assim, viajar no inverno tem lá sua beleza e não há porque recuar frente ao clima contestador.

Certa vez decidi passar o natal com neve. Escolhi Covilhã, cidade medieval na Serra da Estrela, norte de Portugal. Da estação Santa Apolônia em Lisboa, o comboio subiu margeando o rio Tejo contornando plantações displicentes de oliva. No inverno da Península Ibérica, o único verde predominante são os novos galhos das oliveiras podadas. Alguns pinheiros e castanheiras resistentes colorem o azul cinzento.

Os estudantes da Universidade da Beira Interior imprimem vivacidade nesta cidade em declive. No período do Natal, com o recesso escolar, a cidade parece um fantasma numa encosta da serra. Esperamos a chuva de neve na praça central: não foi desta vez. Para brincar na neve foi preciso subir até o cimo da Serra com dois mil metros de altitude. Percorrermos 20 km de encostas e, aos poucos, o branco da neve cobria a paisagem até dominá-la totalmente, formando um monte de gelo em flocos.

Criar boneco de neve é o primeiro ato impulsivo para o batismo no branco indecifrável. Uma hora de brincadeira e o incômodo frio começa a expulsar em busca de ambiente quente com vinho e chocolate. O queijo de ovelha, o presunto serrano e as saborosas azeitonas in natura são aperitivos inesquecíveis.

Com a cidade fechada no Natal e sem ter o que fazer, decidimos visitar duas vilas próximas: Sortelha e Belmonte. Sortelha é cercada por alta muralha de pedras construída na Idade Média. Caminhando pelas ruelas encontrei Filomena, senhora de 86 anos em estado de luto permanente. Nascida na vila de pedra, esperava a morte chegar. Resignada a viver no casebre na crosta da muralha, tecia fios de capim formando cestinhas oferecidas aos turistas. Rezava seu rosário de lamentações e súplicas à Virgem das Neves, padroeira das pedras imortais e do frio imemorial.

Fonte:
Revista Arraso / Edição Aniversário 8 anos
Ano 8; nº 65; 1º semestre/2016
Ao Gato Preto Editora – Piracicaba/SP
Ilustração: Maria Luziano

Grupo de Estudos em Freud – 2º Semestre/2016

A SEXUALIDADE NA ETIOLOGIA DAS NEUROSES

Cronograma: 03, 17 e 31/agosto; 14 e 28/setembro;

05 e 19/outubro; 09 e 23/novembro

Quarta-Feira das 19h30 às 21h

Pagamento: R$ 60,00 a cada encontro

Local: Rua Saldanha Marinho, 792 – Piracicaba/SP

Inscrição para iniciantes:

Agendar entrevista através do email: mmariguela@gmail.com

 

Enunciado:

No percurso de trabalho do Grupo de Estudos em Freud selecionamos os textos desde 1886 para investigar a hipótese clínica fundadora do campo da psicanalise: a sexualidade é o fator etiológico determinante na constituição dos sintomas psiconeuróticos. O objetivo é percorrer a obra freudiana para analisar a hipótese e seus desdobramentos ao longo da elaboração teórica e clínica.

No semestre passado, partirmos das fantasias histéricas para as fantasias obsessivas. Percorremos o ensaio clínico-estético “Uma recordação de infância de Leonardo Da Vinci” e chegamos às “Contribuições à Psicologia do Amor” escritas entre 1910 e 1912.

Neste semestre, começaremos com primeiro relato histórico do movimento psicanalítico, redigido por Freud em pleno alvorecer da 1ª Guerra Mundial. “Contribuição à História do Movimento Psicanalítico”, publicada em 1914 no Anuário de Psicanálise, carrega em suas letras o tom belicoso da batalha entre o Dr. Freud e o Dr. Jung. Com este texto, Freud tornou pública sua penosa decisão: expulsar Carl Gustav Jung do movimento psicanalítico. A pulsão sexual infantil é o pomo da discórdia. Com veemência, Freud reivindica a autoria da hipótese da sexualidade Infantil como gênese de todo adoecimento neurótico, psicótico ou perverso.

Citando a legenda latina do brasão de Paris [Fluctuat nec mergitur: flutua, mas não afunda] o texto se abre retumbante: “a psicanálise é criação minha, por dez anos eu fui o único indivíduo que dela se ocupou, e foi sobre mim que recaiu, em forma de crítica. Penso ter o direito de sustentar que ainda hoje, quando há muito já não sou o único analista, ninguém pode mais do que eu saber o que é a psicanálise, como ela se distingue de outras maneiras de estudar o inconsciente”.

Continua em forma de repúdio: “Repudio o que me parece uma ousada usurpação e também informo indiretamente os nossos leitores sobre os acontecimentos que levarão às mudanças na direção e apresentação deste Anuário”.

A psicanálise é uma criação de Freud e, como tal, instaurou uma descontinuidade no campo das ciências médicas. Todo o embate posterior sobre a questão da análise leiga, isto é, de praticantes da psicanálise sem formação médica, e o nó da autorização para o exercício da psicanálise, decorrem deste documento histórico.

A proposta de trabalho se inicia com alguns delineamentos da genealogia da “Contribuição à História do Movimento Psicanalítico” no conjunto da Correspondência Freud & Ferenczi. O médico húngaro Sándor Ferenczi é o personagem principal na célebre decisão de deserção de Jung nas trincheiras do movimento psicanalítico. De amigos confidentes à inimigos declarados. Freud o acusou de usurpador. Jung pretendeu excluir o infantilismo pulsional da teoria sexual de Freud e da prática psicanalítica.

O ato fundador de Freud em 1914 é uma declaração de guerra contra todos os que fizeram da psicanálise uma psicoterapia moralizante, travestida pelo discurso cristão e pelo discurso pragmático utilitarista das ciências. Freud não deixou dúvidas sobre qual o critério que define um diagnóstico do sofrimento psíquico: a sexualidade infantil é a gênese etiológica das neuroses e psicoses. Os traços mnêmicos das vivencias no tempo de criança contém a escrita da neurose histérica e neurose obsessiva nos tempos vindouros: adolescentes, jovens, adultos e idosos.

Freud demonstrou ser guiado pela célebre premissa enunciada nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905): “os sintomas são a atividade sexual dos doentes”. Demos prova disso ao final do último encontro do grupo de estudos com “Contribuições à Psicologia do Amor 2: Sobre a mais comum depreciação na vida amorosa” (1912). O texto se inicia com uma constatação de fato: “Quando o psicanalista se pergunta por qual motivo ele é mais procurado, excluindo as muitas formas de angústia, tem de responder: por causa da impotência psíquica”. Os sintomas psiconeuróticos tornam as pessoas impotentes, incapaz de tomar decisões e assumir as responsabidades decorrentes. Por um lado, a impotência psíquica conduz a estados depressivos e depreciativos. Por outro, se faz ato numa conversão somática do órgão genital: disfunção erétil masculina e frigidez feminina.

Seguimos acompanhando os desdobramentos tanto históricos quanto conceituais da premissa fundadora da psicanálise: a sexualidade é o agente etiológico das psiconeuroses.

Bibliografia Básica:

FREUD, Sigmund

“Contribuição à História do Movimento Psicanalítico” (1914) In: Obras Completas. Volume 11. Tradução: Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

“Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico” (1911);

“A dinâmica da transferência” (1912);

“Recomendações ao médico que prática a psicanálise” (1912);

“O início do tratamento” (1913);

“Recordar, repetir e elaborar” (1914);

“Tipos de adoecimento neurótico” (1912);

“O debate sobre a masturbação” (1912);

“Princípios básicos da psicanálise” (1913)

“A predisposição à neurose obsessiva” (1913);

In: Obras Completas. Volume 10. Tradução: Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

“Os instintos e seus destinos” (1915)

“A repressão” (1915)

“Luto e Melancolia” (1915)

“Alguns tipos de caráter encontrados na prática psicanalítica” (1916)

In: Obras Completas. Volume 12. Tradução: Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Designado à Beleza

Designado à Beleza

No ato de germinação da filosofia na cultura ocidental encontra-se o desígnio do ser falante: os seres humanos estão designados à beleza, à justiça e à verdade. Esta referência primária é de grande importância para resgatar os valores que fundamentam a imagem do humano em sua especificidade no reino animal.

A beleza é um chamado a indicar com precisão um caminho, à cada um em particular e à cada coletivo social, para o cultivo das possibilidades de prazer estético e imprimindo na vida, graça, leveza e prazer fluído. A belo designa: marca com precisão. Variável no tempo e nas condições, a beleza continuará sempre exercendo sua condição designativa.

No livro História da Beleza, organizado por Umberto Eco, diferentes objetos estão representados para narrar a longa trajetória da relação dos humanos com o belo. No primeiro parágrafo, Eco definiu sua posição: “Belo – juntamente com gracioso, bonito ou sublime, maravilhoso, soberbo e expressões similares – é um adjetivo que usamos frequentemente para indicar algo que nos agrada. Neste sentido, belo é igual àquilo que é bom e, de fato, em diversas épocas históricas criou-se um laço estreito entre o Belo e o Bom”.

A correlação entre Belo e Bom demonstra bem seu caráter de juízo estético sensível. Atribuímos Bom àquilo que nos proporciona uma experiência de prazer, contentamento, felicidade. Logo, a beleza é um juízo de valor que qualifica o que nos agrada. Este aspecto vai além do caráter estritamente pessoal – há experiências com a beleza que adquiriram estatuto universalizante. Isto é, transcende, vai além, do tempo e do lugar.

Em 1930, Sigmund Freud construiu o mais derradeiro diagnóstico do mal-estar na civilização e elencou os tratamentos paliativos para suportar nossa condição infeliz: religião, ciência e arte são os instrumentos disponíveis para tratar do mal-estar. “A questão da finalidade da vida humana já foi posta inúmeras vezes. Jamais encontrou resposta satisfatória. O que os homens pedem da vida e o que desejam nela alcançar? É difícil não acertar a resposta: eles buscam a felicidade, querem se tornar e permanecer felizes”.

Como esse objetivo não se realiza em permanente, a civilização ofereceu lenitivos no mercado da infelicidade. A opção prescritiva do Dr. Freud é atualíssima: o amor à beleza é o que tem menos efeitos colaterais.

No cultivo da felicidade, o gozo da beleza oferece aos praticantes um bem-estar capaz de suportar as contingências de estados de infortúnios. Onde quer que a beleza se mostre a nossos sentidos e ao nosso julgamento, sentenciou Freud, a beleza das formas e dos gestos humanos, de objetos naturais e de paisagens, de criações artísticas, são recursos para mitigar a dor da existência. “A fruição da beleza tem uma qualidade sensorial peculiar, suavemente inebriante. Não há utilidade evidente na beleza, nem se nota uma clara necessidade cultural para ela; no entanto, a civilização não poderia dispensá-la”

Para quem deseja exercitar o cultivo a beleza, duas sugestões:

# “O triunfo da cor: o pós-impressionismo” no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo. 75 telas do acervo do Musée d’Orsay e Musée de l’Orangerie em Paris; disponíveis até 07/julho próximo. Rara oportunidade para contemplar, face-a-face, os amigos intempestivos: Vincent van Gogh e Paul Gauguim. E também contemplar a relação das telas com os fundadores da pintura moderna.

# “Picasso: mão erudita, olho selvagem” no Instituto Tomie Ohtake também na capital; até 14/agosto. Ao todo, 116 obras do genial espanhol: pintura, escultura, desenho e gravura. O acervo vem do Musée National Picasso-Paris e traça um percurso cronológico e temático do período de sua criação. É a maior exposição de Picasso já realizada no Brasil.

Fonte:
Revista Arraso / Design & Decor
Ano 8; nº 64; 1º semestre/2016
Ao Gato Preto Editora – Piracicaba/SP
Ilustração: Erasmo Spadotto