Category Archives: Artigos

Totem e Tabu: gênese da civilização

Rememorar é também um ato de comemorar. Lembrar para não esquecer e assim transmitir às novas gerações as matrizes fundadoras de nossa civilização. Descrever a gênese do processo civilizatório faz parte de diferentes campos do saber. Desde as narrativas míticas passadas adiante pela história oral até as pesquisas etnográficas das ciências sociais (antropologia, história e sociologia) o trabalho de resgatar o passado e nele encontrar o sentido e significação para o presente é cada vez mais urgente e determinante para nossas perspectivas de futuro.

O futuro de nossa civilização depende do árduo e insistente trabalho de resgate de nosso passado individual e coletivo. O processo educativo consiste em preparar os jovens para realizações que tornem o futuro uma promessa e compromisso com o tempo presente e isso não se faz sem o cultivo do passado. “De onde viemos?” é condição para saber “para onde vamos?”; entre elas situa-se a inquietante “o que somos?”.

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Cartografia do ciberespaço

Ler e viajar são minhas paixões predominantes cultivadas desde a infância. Na verdade, descobri o alfabeto junto com o mapa do mundo. Lembro-me que  na sala de aula do 1º ano do Grupo Escolar (assim se chamava o ensino fundamental) havia um grande mapa fixado na parede lateral. Enquanto adquiria as primeiras lições de alfabetização, entrava em devaneios através de linhas formando contornos coloridos e aos poucos fui aprendendo que se tratava de continentes, países, oceanos; territórios com outras culturas e povos habitantes deste deslumbrante planeta chamado Terra. Não demorou a perceber que a leitura é também um modo de viajar. Desde então os conhecimentos de história, geografia e literatura se tornaram objeto de meu desejo libidinal.

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Don Juan, o burlador de Sevilha (10)

Chegamos ao final desta série sobre o mítico burlador representante do arquétipo herói moderno da cultura ocidental. Para encerrar, apresento a versão
“Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido” do aclamado escritor português José Saramago. O livreto foi redigido atendendo ao convite do compositor Azio Corghi apaixonado pela literatura de Saramago. Ambos recriaram, com mestria e sagacidade, a clássica história do licencioso herói de Sevilha, dando-lhe a absolvição final. A ópera foi encenada no Teatro alla Scala de Milão em 2003.

Após ter recebido a notícia da atribuição do Prêmio Nobel de 1998 ao escritor português, Corghi enviou-lhe a seguinte mensagem: “Você me possibilitou dizer, através da música, aquilo que penso dos acontecimentos do mundo”. Por sua vez, Saramago expressou admiração pela obra do compositor italiano: “A arte, a amizade, a generosidade de Azio Corghi trouxeram à trajetória da minha existência uma riqueza que eu jamais teria adquirido sozinho. Graças a Corghi, a urdidura das palavras que criei tornou-se música, tornou-se canto. Foi um feliz encontro, o nosso. Creio que vale a pena conservar o entrelace que somos, ele e eu”.

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Don Juan, o burlador de Sevilha (9)

Em solo dinamarquês, o mítico Don Juan aportou pelas mãos do jovem, filósofo e teólogo Sören Kierkegaard ao escrever Diário de um Sedutor em 1843 e publicá-lo com o heterônimo Johannes de Silentio. Eleito precursor da filosofia existencialista, sua obra contém o enlaçamento decisivo da filosofia com a literatura.

Nascido em Copenhague, Kierkegaard era filho de pastor luterano e rico comerciante de lã. Sua infância marcada pelo temor a Deus e sentimento de culpa que o mergulhava na angústia e melancolia. Era cocho e com precária autoestima. Ingressou na universidade com o propósito de estudar teologia e em 1837 conheceu Regina Olsen, jovem de 17 anos com quem iniciou namoro, prometendo fidelidade e casamento após concluir os estudos. A morte do pai interrompeu os planos do jovem Sören.

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