All posts by Márcio Mariguela

Psicanalista com formação em filosofia e doutor em psicologia da educação pela Unicamp.

Réquiem para Lucília

Fui buscar na Lacrimosa de Wolfgagng Amadeus Mozart a inspiração para narrar meu réquiem em homenagem ao descanso eterno de Lucília Augusta Reboredo. A lembrança inicia sua cavalgada nas reuniões sobre inovação curricular do curso de psicologia nas salas do atendimento clínico no atual Museu Marta Watts da Universidade Metodista de Piracicaba. No fim da década de 1980, partilhávamos o desejo de uma formação acadêmica integrada na tríade ensino, pesquisa e extensão. Os conteúdos de ensinamento se enlaçavam na prática política e não nas demandas do mercado. Sabíamos da volatividade dessas demandas. Sonhávamos com um profissional da psicologia que pudesse assumir eticamente seu compromisso com os miseráveis abandonados em favelas e periferias da cidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ela com sua histórica formação na Pontíficia Católica de São Paulo, eu com minha formação marxista na PUC-Campinas. Ela formada num dos maiores celeiros da psicologia social. Lá em São Paulo, a PUC abrigava relevantes pesquisadores que marcaram a histórica da psicologia no Brasil. Lá estava Ela. Sua prática docente foi instituída naquele campus onde a pesquisa em psicologia social dava o tom para a formação dos futuros psicólogos. Lá era um verdadeiro encontro com as políticas públicas de saúde psíquica pelas práticas de subjetivação da cidadania. O encontro inventivo entre pesquisa e extensão. O saber acadêmico com o cheiro das ruas e o sabor da justiça social. Ela se fez no compromisso com a luta política num espaço de confronto. Naquele campus ocorreu uma das batalhas contra a ditadura militar. Muitos professores foram mortos, perseguidos, torturados. E ela se fez no combate para que a abertura política pudesse ser também uma abertura para outras possibilidades de existência. A defesa da cidadania passava pela aquisição simbólica de si na efetiva relação com os outros.

De Eu e Tu ao Nós. As relações sociais são formadoras do psiquismo individual. Seu trabalho virou livro e fez história na formação dos psicólogos. Ela veio a Piracicaba com seu engajamento certeiro: a vida psíquica é comunitária. Fomentar a vida comunitária para que nela cada um pudesse experimentar o inclusivo nós. Tratar do psiquismo é dar condições materiais e simbólicas para que os enlaçamentos criem identidades psíquicas flutuantes. Flutuantes como as mandalas que Ela criou enquanto a esclerose lateral amiotrófica (ELA) sorrateiramente solapava seus movimentos. Com as mandalas, Lucília narrou esteticamente, seu cântico babilônico. A nostalgia de um tempo que se escoava com a perda progressiva dos movimentos até lhe restar apenas o movimento ocular. Com os olhos escreveu sua trágica situação:
um espírito aprisionado num corpo inerte. O livro A Dança dos Beija-flores no Camarão Amarelo (Jacintha Editores) é a expressão mais sublime da dicotomia corpo/alma instaurada por Platão. Nele, cada frase foi construída num lúcido exercício psíquico e ditada, letra a letra, pelo movimento ocular entre uma tabela alfanumérica e a pessoa que estava ao lado para grafar a sinalização dada pelo olhar. A apresentação é dilacerante: “Meu intelecto e meus afetos não reconhecem mais o corpo que antes os concretizavam na relação entre o pensar e o fazer.

Filosoficamente, é como se eu estivesse vivendo a separação do espírito e da matéria. O reencontro dáse no riso e no choro, quem sabe por meu corpo ainda ter autonomia para viabilizar tais emoções. São três anos de angústia, desespero e tristeza indescritíveis. Entretanto, sempre acreditei que o ser humano possui possibilidades de reinventar a vida em quaisquer circunstâncias. E essa crença me faz sentir que apenas ‘quebrei as asas’ e terei de aprender a alçar outros e novos voos”. Assim, de forma abrupta e sublime, o leitor é convidado a percorrer o curso e percurso de seu adoecimento iníciado em 2006. Seu anjo da guarda, Mariá Aparecida Pelissari, presenteou com a seguinte introdução: “É soletrando com os olhos que Lucília constrói sentidos. Essa base para sua expressão é uma espécie de escritura de si, pois que, ao narrar seu percurso recente, Lucília se reinventa e possibilita sua nova inscrição no mundo. Assim, este livro confere o suporte ideal para ela ocupar um lugar na escrita de si, ao autorizar-se a publicar e esperar algum efeito no outro e em si própria. Por suas páginas, os olhos de Lucília falam, sorriem, ensinam abraçam”. Nesse percurso convivendo com ELA, Lucília foi capaz de superar a si mesma: “creio que levei minha existência inteira ultrapassando meus próprios limites. Não foi por acaso que, vindo de uma família pobre de imigrantes portugueses, nascida em uma aldeia na região de Trás-os-Montes, cheguei a me formar doutora em psicologia e ser professora universitária. E por isso, também, eu tinha tanta resistência em aceitar minhas limitações físicas”. A cada nova restrição, uma nova alternativa de expressão. Suavemente demonstrou haver vida para além d’ELA. Certo dia Ela convidou-me para visitá-la. Ao contemplar seus olhos percebi de súbito a potência da alegria silenciosa. Aquele que só pode existir entre os que se amam. O silêncio pairava entre notas musicais do Quarteto de Cordas que foram lhe presentear e minhas lágrimas que jorravam sem cessar. Chorei por mim, por Ela e pela efemeridade de nossas vidas. Lacrimosamente, a vida segue embalada pelas lembranças: memória de valores coloridos com a vertigem da liberdade. Precário, provisório, perecível.

Descanse em paz, minha querida.

Grupo de Estudos em Freud – Grupo de Estudos em Freud

O chiste e suas relações com o inconsciente (1905)

Cronograma: 08 e 22 agosto; 05 e 19 setembro; 03, 17 e 31 outubro, 07 e 21 novembro
R$ 30,00 por encontro = R$ 270,00 – Inscrição por email até 03/08 – vagas limitadas: 15

Por ocasião do centenário de nascimento de Freud, Jacques Lacan proferiu a conferência “Freud no Século” aos estagiarios em psiquiatria no Hospital Salpêtrière, local onde Freud fez sua propria residencia médica junto ao Dr. Charchot. Destacou os livros “A Interpretação dos Sonhos”, “A psicopatologia da vida cotidiana” e “O chiste e suas relações com o inconsciente”, como os fundamentos do campo da psicanálise e aos mesmo tempo o leme do movimento de retorno a Freud instaurado pelo psicanalista françes desde a década de 1950. Elas contem o tema central do Seminário 5 “As formações do inconsciente”. Sonhos, sintomas, atos falhos, lapsos e os chistes são elementos de um conjunto e como tal possuem as mesmas características: são formações do inconsciente.
No decurso/percurso da proposta do grupo de estudos em Freud, chegou a vez de nos determos na leitura do livro dos chistes e assim completar o trabalho de retornar a Freud pelas obras fundadoras destacadas por Lacan. As particularidades desse livro é um desafio adicional para leitura em nossa lingua materna. A tradução dos chistes (Witz) escolhidos por Freud perde toda a graça e o leitor portugues logo se cansa por não encontrar literalidade que permitiria o riso e assim, é convocado a seguir argumentos de Freud sem o substrato essencial. O texto fica sem graça uma vez que o jogo com a sonoridade da palavra, sua expressão verbal, é a matéria prima dos chistes. Eles fazem rir por uma certa torção no campo da significação, instaurando o nonsense. Lacan não se curvou diante do desafio e propôs traduzir Witz por dito espirituoso, tirada espirituosa, que tem o único proposito de produzir o riso. A fluidez semântica é deslocada para o que tem espirituosidade. Nessa estratégia, encontramos uma nova e inusitada forma de abordar o inconsciente com graça e leveza. Contrário a pratica clínica que cada vez mai perde a graça, Lacan conduziu seus ouvintes e a nós, seus leitores, a retornar ao texto e a clínica freudiana com a espirituosidade que a ética da psicanálise requer daqueles que pretendem uma formação ancorada nas formações do inconsciente.

Grupo de Estudos em Lacan – Seminário 7 – A Ética da Psicanálise

Cronograma: 15 e 29 agosto; 12 e 26 setembro; 10 e 24 outubro; 14 e 28 novembro
R$ 30,00 por encontro = R$ 240,00

Seguindo com o trabalho de leitura do Seminário sobre a ética da psicanálise, vamos nos deter na interpretação que Lacan fez da clássica tragédia “Antígona” de Sófocles para demarcar o prototipo do que exigido do psicanalista na condução de um tratamento: na dimensão trágica da experiência psicanalítica: “Antígona é uma tragédia, e a tragédia esta presente no primeiro plano de nossa experiencia, a dos analistas, como é manifesto nas referencias a Freud – impelido pela necessidade dos bens oferecidos por seu conteúdo mítico – encontrou em Édipo, mas também em outras tragédias. E se ele não destacou mais expressamente a de Antígona, não quer dizer que ela não possa ser evidenciada aqui, nesta encruzilhada para onde eu trouxe voces”. Qual a encruzilhada? A função do bem e a função do belo no paradoxo do gozo. O problema da sublimação foi ressignificado por Lacan ao analisar a demanda de felicidade e a promessa analítica: “permitir ao sujeito situar-se numa posição tal que as coisas, misteriosa e quase miraculosamente, aconteçam para ele de uma boa maneira, que ele as aborde pelo lado certo (…) Ousando formular uma satisfação que não é paga com um recalque, o tema colocado no centro, promovido em sua primazia é – o que é o desejo? A propósito disso posso apenas lembrar-lhes o que nessa época articulei – realizar seu desejo coloca-se sempre numa perspectiva de condição absoluta”. É essa condição absoluta que Lacan leu em Antígona.

Curso de Extensão em Psicanálise – As estruras clínicas na atualidade da psicanálise I – Neurose Histérica

Ministrado por: Marcio Mariguela, psicanalista e professor de filosofia

Horario: 9 as 12h – Vagas Limitadas: 20 – Certificado de Participação
Inscrição: mmariguela@gmail.com
Valor: R$ 100,00 no ato da inscrição – R$ 100,00 chq p/30 dias
Local: Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto – Piracicaba

Cronograma:

25/08 – As estruturas Freudianas do Espírito no Seminário 5 de Jacques Lacan

29/09 – A humanização inverte a tirania genética: a psicanálise e as neurociências

27/10 – Signos e Casos: O nascimento da Clínica

24/11 – Neurose e traumatismo: a emergencia do corpo neurológico

15/12 – O problema da simulação e da insurreição dos histéricos

Bibliografia Básica:
LACAN, Jacques Lacan O Seminário – Livro 5 – As formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
POMMIER, Gérard  Como las neurociencias demuestran el psicanálises. 1ª Parte: “El corpo crece com el impulso da linguagem”. Buenos Aires: Letra Viva, 2010
FOUCAULT, Michel O Nascimento da Clínica. Capítulo VI: Signos e Casos. Rio de Janeiro: Forense Univiversitária, 4ª ed., 1994
FOUCAULT, Michel O Poder Psiquiátrico. Aula de 06/02/1974 no Collège de France. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
FOUCAULT, Michel O Poder Psiquiátrico. Aula de 12/12/1973 no Collège de France. São Paulo: Martins Fontes, 2006.