Melancolia

Melancolia

A melancolia designa um estado d’alma oscilante entre a depressão e mania. Serviu tanto para diagnosticar a tristeza que não passa como para um contentamento desmedido. O estado melancólico foi descrito, cartografado e diagnosticado na civilização ocidental desde os gregos clássicos.

No livro ‘A tinta da melancolia: uma história cultural da tristeza’, Jean Starobinski, com a finesse que lhe é própria, reconstruiu a história da melancolia para retratar a condição humana: ser aprisionado entre sentimentos opostos (alegria/tristeza, amor/ódio, coragem/covardia).

A matriz etimológica (melainè cholé) indica o melancólico governado pela bile negra, o humor negro: substância grossa, corrosiva, tenebrosa, amarga, proveniente do fígado. Quando a bile negra sobe à cabeça, o corpo entra num estado de transtorno, afetando a temperança, o equilíbrio e a moderação. O sujeito adoece num estado de insanidade, loucura e desatino.

Aristóteles descreveu o melancólico: “neles a bile negra é excessiva e quente, o que os torna presas do delírio, experimentam felizes disposição passageira, tornam-se amorosos sendo facilmente levados às paixões e desejos, e alguns se mostram mais tagarelas. Frequentemente ficam aflitos e não conseguem dizer deste estado de ansiedade; ficam alegres e a razão desta alegria também desconhecem”.

Hipócrates tinha um diagnóstico certeiro: “quando o temor e a tristeza persistem por muito tempo, é um estado melancólico”. Starobinski constatou que na ciência moderna, a melancolia se confundiu com sintomas de depressão endógenas e reacionais, esquizofrenia, neuroses ansiosas, paranoias, manias e megalomanias. Por certo, o tratamento da melancolia acompanhou a própria história do diagnóstico e as representações do que é o elemento psíquico existente nos seres humanos e não nos demais animais.

Numa carta ao amigo Wilhelm Fliess em 1895, o neurologista Sigmund Freud também identificou o sofrimento melancólico: ‘A melancolia ocorre, tipicamente, em combinação com intensa angústia. O afeto correspondente à melancolia é o luto – em outras palavras, o desejo por alguma coisa perdida”.

No ensaio “Luto e Melancolia” publicado em 1917, Freud comparou a melancolia com o trabalho de luto indicando o ponto em que se separam: autoestima, amor próprio. ‘A melancolia se caracteriza por um abatimento, perda do interesse pelo mundo exterior e da capacidade de amar, inibição e diminuição da autoestima, que se expressa em recriminações e ofensas à própria pessoa e pode chegar a uma delirante expectativa de punição”. O melancólico não tem amor próprio.

Vincent van Gogh é um caso típico de melancolia. Numa de suas cartas ao irmão Theo registrou sua condição e escolha: “em vez de me deixar levar pelo desespero, tomei o partido da melancolia ativa enquanto tinha a potência da atividade; preferi a melancolia que aspira e que busca, à outra que embota e, estagnada, desespera”.

“Retrado do Dr. Gachet”
Vincent Van Gogh (1853-1890)

Pouco antes de ser atingido por uma bala perdida, Vincent pintou o Retrato do Dr. Gachet (1890). Nela inscreveu a melancolia de forma surpreendente. O médico psiquiatra que o consultava aparece apoiando a cabeça abatida pela melancolia. O corpo inclinado compõe um horizonte montanhoso petrificado. Sobre a mesa, dois ramos de Digitalis (flor conhecida como dedaleira) num copo, indicando o fármaco utilizado no tratamento do abatimento melancólico. Em segundo plano, dois livros com o título no dorso, novelas com a personagem principal em estado d’alma melancólica, Manette Salomon e Carminie Lacerteux.

Dr. Gachet também escreveu um estudo sobre a melancolia indicando que o melancólico é semelhante a um vegetal ou a uma pedra: fica estático, em situação de captura. “Num obstáculo no qual o pensamento e o movimento vital se chocam sem ter fim; tropeçam sem cessar e em vão, o obstáculo não pode ser ultrapassado”.

 

Fonte:
Revista Arraso / Estilo+Filhos+Noivas
Ano 9; nº 74; 2º semestre/2017
Ao Gato Preto Editora – Piracicaba/SP
Ilustração: Maria Luziano

Imagens de Maria

Imagens de Maria

Ouça o artigo na íntegra:

Venho de uma linhagem paterna devota de Nossa Senhora Aparecida. No mais longínquo de minha memória infantil, vejo a padroeira do Brasil num canto da sala. Minha avó ganhou como presente de casamento a imagem de 40 cm, em gesso, com uma coroa em fundo vermelho, hoje desbotada pelo tempo. A imagem acompanhou meus primeiros passos em direção a um objeto.

Quando minha avó faleceu, sua filha guardou os objetos no quarto até que um dia, numa polenta com frango, disse: “agora me converti à igreja evangélica e o pastor falou que não posso ter imagem de santo ou da virgem exposta em casa. Vou guardar numa caixa”.

Engasguei e indaguei: “e a Nossa Senhora da vó?” Se você quiser pode levar, me respondeu. Hoje a imagem da virgem Aparecida nas águas do Parnaíba segue me acompanhando num altar no escritório. Olho para ela e vejo o semblante materno da mulher que me educou.

Tenho predileção em conhecer as diferentes invocações à Maria e suas representações em imagens na história da cultura ocidental cristã. Na mais diferente realidade cultural, a Virgem Maria é objeto de devoção como símbolo da função materna e, por extensão, da própria família. Desde a concepção, em dogma imaculada, até sua assunção ao céu, a presença da fé e crença numa mulher que deu à luz ao reconhecido filho de Deus é cultuada em múltiplas imagens e atos de nomeação.

No povoado de São Miguel dos Milagres, litoral norte de Alagoas, existe um pequeno templo no lugar mais alto daquela região. Todo pintado de azul celeste, faz bela composição com o céu marejado e o vasto campo de coqueiros. Aos pés da igrejinha azul, duas fileiras de casebres se esparramam margeando a estrada e desenhando a geografia litorânea até a divisa com Pernambuco.

No altar mor, a imagem da Virgem Mãe do Povo com o menino Jesus ao colo, estende o braço direito num gesto e expressão que demonstra acolhimento e benção. A escultura, provavelmente feita em Portugal no século 19, apresenta Maria com cabelo alongado sobre o ombro direito e ornado por uma coroa prateada. Seu rosto demonstra traços de uma mulher do povo/ado com um detalhe singular: brinco pingente verdadeiro. Sim, um par de brincos define a composição. Primeira imagem (em escultura) de Maria com brincos que conheci.

Na catedral de Granada (Espanha), conheci a mais bela representação erótica de Maria com o seio desnudo, invocada como a Virgem do Leite. A obra pertence ao acervo da coleção particular da rainha Isabel 1 de Castela, devota fervorosa da Virgem amamentando o menino Deus. Ela própria empenhou-se no culto e devoção por toda extensão Península Ibérica. A imagem atravessou Oceano Atlântico no processo de colonização da América espanhola.

No monastério dedicado à Virgem Maria das Mercês em Cuzco (Peru) há uma imagem surpreendente: São Pedro Nolasco, fundador da ordem dos mercedários no século 13, é retratado mamando no seio da Virgem do Leite. A pintura é discreta e, compõem a série sobre a vida do santo, ornamenta as paredes do pátio.

Conhecia a imagem de São Bernardo de Claraval deglutindo o leite a jorrar do seio de Maria. Nas representações, a Virgem do Leite é uma escultura diante da qual o piedoso santo recebe o milagre. Na cena do monastério de Cuzco é o próprio Nolasco com os lábios no seio; sendo observado, com certo espanto, pelo menino Jesus que estava mamando no outro seio.

Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro/SP

Psicanálise e Filosofia