Genealogia do masoquismo e do sadismo na neurose e na psicose

Grupo de Estudos em Freud 2021

Genealogia do masoquismo e do sadismo na neurose e na psicose

Encontros online quinzenais – 4ª feira das 19h30 às 21h

Início: 04 de agosto de 2021

Valor: R$ 60,00 por encontro

Inscrições e Informações – Patrícia Olandini:

Whatsapp: (19) 99678-1545

Enunciado:

O trabalho de investigação genealógica da etiologia sexual dos sintomas neuróticos e psicóticos partiu da correspondência [1887-1904] de Sigmund Freud com Wilhelm Fliess e chegou na cartografia do aparelho psíquico construída em 1923 com a publicação do livro O Eu e o Isso.

Desde o início, o problema da interiorização do código moral esteve presente nas leituras realizadas e, em especial, traçamos a genealogia do SuperEu como instância psíquica responsável por instituir o que se nomeou, desde Nietzsche, como consciência moral. Com a nova cartografia do aparelho psíquico em mãos, Freud iniciou o trabalho de reconstrução da teoria e da prática clínica.

A chegada da pandemia em março de 2020 interrompeu os encontros de estudos que ocorria há mais de uma década em Piracicaba. Suspenso o presencial, voltamos agora na modalidade virtual com a forte esperança da transmissão da psicanálise retornar ao contato dos corpos e com este novo hibridismo presencial/virtual.

A posição de Freud em reconhecer o sadismo do SuperEu nos levou à gênese do sadismo e do masoquismo em alguns escritos que registram o deslocamento do caráter primário da pulsão sádica: depois do SuperEu, o masoquismo é designado como pulsão primária.

A proposta de estudos neste semestre é, como sempre tem sido, retornar a Freud para diagnosticar o presente. E no atual estado da pandemia no Brasil, o presente é atravessado por dois fenômenos mortais: o coronavírus covid 19 e a negação de sua potência mortífera. Os negacionistas são sádicos ou masoquistas? Com Freud, são masoquistas e sádicos. Este par que Freud enlaçou é bem representado na imagem da litografia de M.C.Escher: “Vínculo de União”, abril 1956, escolhida para ilustrar nosso tema.

Retornamos ao ensaio Luto e Melancolia, escrito em 1912 e publicado em 1917. Pela melancolia seguimos para O Problema Econômico do Masoquismo (1924), para encontrar um problema que permaneceu em aberto desde a publicação dos Ensaios sobre a Teoria Sexual em 1905: qual a relação entre o masoquismo e o sadismo?

No ensaio, Neurose e Psicose (1924), ofereceu uma “fórmula simples” para psicodiagnóstico: “a neurose é o resultado de um conflito entre o Eu e o Isso, enquanto a psicose é o análogo desfecho de uma tal perturbação nos laços entre o Eu e o mundo exterior”. Freud voltou a este tema, meses depois, no ensaio A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose para traçar a diferença fundamental: “na neurose uma porção de realidade é evitada pela fuga, enquanto na psicose é remodelada (…) dito de outra maneira, a neurose não nega a realidade, apenas não quer saber dela; a psicose a nega e busca substituí-la”.

Concluímos com o artigo Resumo da Psicanálise publicado na Enciclopédia Britânica em 1924: “a psicanálise cresceu num terreno bem delimitado para acessar os segredos das neuroses, sobretudo da misteriosa histeria, modelo paradigmático de toda neurose”. Freud inseriu-se no território dos filósofos, místicos e… charlatães para investigar “o fator psíquico” como fator etiológico no sofrimento neurótico e psicótico.

Bibliografia Básica:

FREUD, Sigmund “Luto e Melancolia” in: Obras Completas – volume 12. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. FREUD, Sigmund “O Problema Econômico do Masoquismo”; “Neurose e Psicose”; “A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose”; “Resumo da Psicanálise” in: Obras Completas – volume 16. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Sigmund Freud & Sándor Ferenczi

Os amigos: Freud e Ferenczi

Na residência/consultório de Sigmund Freud em Viena, ocorreu o primeiro encontro com Sándor Ferenczi, médico de Budapeste. Mediado por Gustav Jung, a visita se deu na final de tarde de um domingo de janeiro de 1908, selando o destino desta amizade tão criativa e criadoura. Há uma psicanálise antes e outra depois deste encontro.

No dia seguinte, Ferenczi enviou carta de agradecimento, registrando seu desejo:

“sou imensamente grato por sua disposição em receber-me, um desconhecido para o senhor. No último ano, tenho me ocupado de sua teoria do inconsciente e fui convidado a expor suas ideias na Sociedade Real de Médicos de Budapeste. Escolhi o seguinte título: Neuroses atuais e psiconeuroses à luz das pesquisas de Freud e a psicanálise. O público é formado por médicos, em parte ignorantes e, em parte, mal-informados. Gostaria também de ser um mestre neste novo terreno delimitado pela experiência clínica do senhor”.

Freud em Viena; Ferenczi em Budapeste; 250km de distância de uma cidade a outra; mais de 1200 cartas, cartões e telegramas, cambiados entre 1908 a 1933. Escrita intensa e em ebulição, nas cartas encontramos um dos maiores registros do ato de criação dos principais livros e artigos do inventor da psicanálise e a incansável colaboração do jovem discípulo húngaro na causa do inconsciente.
Ferenczi chegou para a visita com o entusiasmo juvenil e o desejo de conhecer o autor do livro A Interpretação dos Sonhos, publicada por Freud em 1900. Admiração recíproca. Freud ficou encantado com a vivacidade e sagacidade do jovem visitante e, de pronto, o acolheu como amigo íntimo no seu núcleo familiar.

Ferenczi foi convidado para as férias de verão da família Freud em Berchtesgaden, região alpina no extremo sul da Alemanha. Numa carta, Freud declarou:

“espero ansiosamente por nossa primeira viagem para conversarmos sobre diversos assuntos e pelo prazer de sua agradável companhia. Vou reservar sua hospedagem numa pensão ou hotel próximo da bela casa que alugamos para abrigar toda a família. Assim ficará mais fácil tê-lo em nossa mesa e em passeios pelas montanhas com meus garotos”.

A resposta de Budapeste veio certeira:

“Poucas vezes aguardei com tanta ansiedade pelo período de férias como este ano. Agradeço imensamente o gentil convite. Já me imagino em passeio pelas montanhas bávaras e estou tão excitado quando seus diletos filhos. Será um prazer acompanhá-los em excursões nas montanhas”.

Desde o encontro inicial, da primeira até a última carta, Ferenczi dirigia a palavra à Freud chamando-o de Ilustríssimo Professor. Por sua vez, Freud iniciou com Caro Colega e, após a primeira viagem, Caro Amigo. A única exceção ocorre em duas cartas após a viagem à Sicília. Pela insistência da demanda do amigo por um pai, Freud dirigiu-lhe a palavra, com certa ironia, chamando-o de Caro Filho. E justificou:

“preferia ter um amigo autônomo; mas como você está criando tantas dificuldades, sou obrigado a aceitá-lo como filho. Sua luta de libertação não precisa se desenrolar entre as alternativas de revolta e da submissão. E, não exija de mim mais do que estou disposto a lhe conceder de bom grado”.

In: Jornal Cidade – Rio Claro/SP – 11/junho/2021 – Projeto Conhecimento para Todos

Os amigos Nietzche Wagner

Os amigos: Nietzsche e Wagner

Nos estudos em história da filosofia ocidental, do século 4 aC, na vasta extensão dos gregos e romanos até o século em que nos situamos, o iniciante de tão longa jornada, vai aos poucos escolhendo seus companheiros: os filósofos que representam a história da filosofia.

Meus eleitos foram os criadores de uma obra de pensamento marcada pela presença decisiva de amigos. Todo criador tem o amigo com quem compartilha seu trabalho de criação. O ato de criação é tecido pela amizade, o estado de enlaçamento criativo.

Aristóteles dedicou o livro 8 da Ética ao tema da amizade, destacando ser uma virtude sumamente necessária à vida:

“Porque sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que possuísse todos os outros bens. Amizade ajuda os jovens e aos velhos; aos que estão no vigor da idade, ela estimula a prática de nobres ações, pois na companhia de amigos os homens são mais potentes para criar, agir e pensar”

Dentre os amigos criadores, destaco o encontro do jovem professor de Filologia Clássica na Universidade da Basileia, Friedrich Nietzsche e o músico Richard Wagner. Meu interesse é no registro histórico do primeiro encontro presencial, corpo-a-corpo. Na carta, 09/nov/1868, escrita em Leipzig, Nietzsche narrou ao amigo Erwin Rohde, sua felicidade ao receber o convite para se encontrar com Wagner as 3:15pm no café Teatro.

O músico, já consagrado por suas composições operísticas, estava em segredo em Leipzig [nem a imprensa sabia] e solicitou um encontro. Desejava ouvir dos lábios de Nietzsche o que ele falava nas aulas sobre a função da música na tragédia grega.

Depois do breve encontro no café, Nietzsche foi convidado para jantar na família onde Wagner se hospedava:

“julgando que havia numerosos convidados, decidi fazer grande toilette [comprou fraque, aparou seu indefectível bigode]. Fui apresentado ao maior poeta da música e disse-lhe da minha veneração. Agora vou lhe contar os efeitos desse encontro: prazeres fortes que reverberam em mim produzindo uma descontinuidade. É um homem fabulosamente vivaz e fogoso; fala muito depressa, é muito brincalhão; alegra e anima em extremo uma reunião íntima”

O jantar deu o tom e o sabor da intensa amizade que produziu efeitos de criação para ambos:

“Tive com ele uma prolongada conversa sobre Schopenhauer. Foi um enorme prazer ouvi-lo falar com entusiasmo indescritível do meu filosofo preferido e do quando agradeceu por ter sido ele que primeiro reconheceu a essência da música. No final, quando me preparava para partir, Richard apertou calorosamente minhas mãos e convidou-me com grande amabilidade para novo encontro para falarmos de música e filosofia”

Novos encontros se seguiram e Nietzsche passou a conviver na intimidade do casal Wagner e Cosima. Viajaram juntos e conversavam sobre a importância da obra de Arthur Schopenhauer para o enlace definitivo da filosofia com a música, em especial no drama musical onde palavra e som alcança o sublime.

Anos depois deste primeiro jantar, Nietzsche criou a obra fundadora do seu pensamento filosófico: Assim Falou Zaratustra. Nela, a filosofia tornou-se musical. Nos cantos de Zaratustra, o humano foi designado potência de criação.

In: Jornal Cidade – Rio Claro/SP – 16/abril/2021 – Projeto Conhecimento para Todos

Psicanálise e Filosofia